Por um dia, por uma hora, por um minuto que seja. O suficiente para olhar para o que está por trás da palavra.
Durante décadas, Portugal foi moldado ao que a Europa e os sucessivos governos decidiram. Ficou uma estrutura económica frágil, assente em sectores de baixo valor acrescentado, com poucas grandes empresas internacionais com propensão para o crescimento e uma maioria de Pequenas e Médias Empresas (as PME), com imensas micro-empresas dentro destas. Sem meios para crescer. Logo, estamos numa economia que tem uma ideia persistente de que o trabalho pode ser barato sem consequências.
Mas as consequências existem. Só não entram todas nas estatísticas, e também estão no desgaste físico, na pressão psicológica e na normalização de viver no limite. Também é isso que está por trás do que depois aparece como “baixa produtividade”.
O problema nunca foi uma incapacidade colectiva. Foi a repetição das mesmas escolhas: pagar pouco, exigir muito, investir pouco e aceitar o desgaste como inevitável. Depois estranha-se o resultado. Mas ele vem sempre do mesmo sítio: produtividade abaixo da média europeia, salários estruturalmente mais baixos e crescimento mais lento. Não há mistério, existe, sim, um modelo económico que produz exactamente aquilo para que foi desenhado.
As carreiras que deviam sustentar o país — Saúde, Ensino, Segurança, Justiça, Coesão Social e Cultura, entre outtas — foram sendo esvaziadas ao longo dos anos. Não por uma decisão única, mas por uma erosão contínua de salários, progressões e estabilidade. E, apesar disso, continua-se a exigir o mesmo nível de resposta, ou até mais.
O resultado vê-se todos os dias. Hospitais que resistem porque os profissionais não desistem. Escolas que funcionam porque há professores a dar mais do que deviam. Tribunais que acumulam atrasos. Serviços sociais a tapar buracos permanentes. Todos estes a acumular situações burocráticas para as quais deviam existir mais profissionais para o fazer. O país continua de pé, mas cada vez mais apoiado no esforço individual de quem o mantém a funcionar. E convém desfazer uma mentira conveniente: a burocracia que sufoca o Estado não foi criada por quem está nos hospitais, nas escolas, nos tribunais ou nos serviços públicos. Esses trabalhadores não desenharam o labirinto. No entanto, têm que trabalhar “com” ele (aka, para ele) diariamente, enquanto lhes apontam o dedo pelos atrasos que o próprio sistema provoca, enquanto perdem, aos poucos, a vontade de trabalhar (tenho um trabalhador desses cá em casa, que adorava o que fazia. Hoje? trabalhar é uma obrigação)…
E quando uma sociedade vive assim durante demasiado tempo, o problema deixa de ser apenas económico ou institucional, e passa a ser social.
O desgaste entra na vida das pessoas, nas famílias, nas relações, na forma como se trabalha e como se vive. A saúde mental deixa de ser um tema periférico e passa a ser um retrato do próprio contexto. Ansiedade, burnout e depressão deixam de ser excepções e tornam-se sinais de todos.
Há ainda um ponto que raramente recebe a atenção que merece: a deficiência, a dependência e a fragilidade. É aí que se vê primeiro o estado real de uma sociedade. Quando os cuidados continuados, o apoio diário e a integração falham (e falham imenso!), não é apenas quem precisa deles que fica exposto. Fica exposta toda a rede que deveria sustentar uma família, que sustentam a sociedade.
E nada disto surge de repente.
Os episódios que hoje ocupam as notícias são apenas a parte visível de um desgaste acumulado durante décadas. Não são acontecimentos isolados. São sintomas.
Quando uma sociedade vive demasiado tempo em modo de sobrevivência, os sinais começam a aparecer onde mais doem. Aparecem sob forma de crianças mortas ou maltratadas, sobre idosos esquecidos, sobre violência doméstica, sobre pessoas abandonadas à sua própria sorte. Aparecem na facilidade com que se perde empatia e na dificuldade crescente em reconhecer a fragilidade do outro. Não porque as pessoas se tenham tornado subitamente piores, ou más, mas porque o desgaste prolongado também corrói aquilo que mantém uma sociedade ligada aalgo mais do que interesses individuais.
E isto não é apenas um problema de Portugal. Em sociedades marcadas por baixos salários, instabilidade e redes de apoio cada vez mais frágeis, a sobrevivência acaba por substituir a vida. E quando isso acontece, sobra menos tempo para cuidar, menos disponibilidade para os outros e menos capacidade para manter os laços sociais.
No fundo, a questão é simples: até quando se pode pedir a uma sociedade que funcione sob pressão permanente sem começar a perder aquilo que a mantém coesa? Uma panela de pressão pode funcionar durante muito tempo. Mas, quando a pressão nunca é libertada, desgasta-se. Mais cedo ou mais tarde, a panela rebenta, e o fogo começa.
Chega a um ponto em que “Já não é a aldeia que educa a criança. É a criança que pega fogo à aldeia para sentir o seu calor.” E talvez o mais preocupante seja isto: já quase ninguém tenta apagar o incêndio, porque cada um anda demasiado ocupado a sobreviver ao seu.
Querem uma sociedade assim?
Queremos?

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