Não sei a vossa opinião, mas eu estou farta de ver a minha vida, e a dos meus, limitada por eles, pelos parvos…
Vou dar um exemplo concreto:
O meu filho sofre de hipermetropia e possui 8 e 7 dioptrias, cada uma delas em cada olho que tem na cara (sim, hoje em dia tem que ser dito tudo, mesmo tudo, se calhar, por causa dos “parvos”…). E desde que usa óculos, tinha para aí uns 3 anos, que se autoproclama como “cegueta”.
Quando não usava óculos, tinha que decorar as cores das nossas roupas, para depois recorrer a nós sem se enganar, e, nos trabalhos da cresce, em que tinha que pintar “dentro do risco”, ele pintava dentro dos riscos que conseguia ver, e nós, em casa, no final do ano, recebíamos papéis e papéis com riscos coloridos todos misturados, dentro e fora dos riscos “da norma”. Imediatamente, pensámos que ele via algo para além das formas, que coisa espectacular, a visão de uma criança! Por conseguinte, nunca gostou de desenhar ou pintar.
Assume-se como cegueta, e nunca ninguém lhe disse que não era, porque, na verdade, ele não vê nada bem sem óculos. Vê só cores.
Recentemente, ele e uns colegas, fizeram um trabalho de grupo para a disciplina de Matemática, para o ensino secundário, com o objetivo de ir para um concurso nacional. Trabalhos de matemática, como todos conhecemos, dão imensa vontade de ver, não é? Não, são a maior seca do mundo. Quem fez um trabalho de matemática, ou assistiu a um trabalho de matemática, foi submetido ao maior sofrimento na história da humanidade. Ora, ele e os colegas, todos eles com síndrome de “mau perdedor”, e motivadíssimos pelo prémio (que não sei qual era), fizeram um trabalho sobre coordenadas geométricas em que o meu filho era o “cegueta” (e, por isso, tinham que lhe dar ordens para chegar onde pretendia, com imensas trapalhadas. Trabalhos com adolescentes, é o que dá…).
O que é certo é que o trabalho estava giríssimo, eu fartei-me de rir, porque estava mesmo engraçado, não porque pertencia ao meu filho, mas porque explicava, de forma cómica, o que são os eixos x e y, e como chegar a uma determinada coordenada, de forma bastante engraçada.
Mas o trabalho foi impedido de participar do concurso. Ainda lhe perguntei se eles queriam que contestasse essa decisão, que o faria em 2 tempos, mas ele disse-me que não queria, e disse que não queria falar mais nisso, e disse ainda que nos próximos trabalhos, não se iria esforçar tanto. Por último, perguntou se poderia pedir indemnizações se fosse chamado de cegueta, e eu, como em muitas coisas, não lhe soube responder, mas não tardei a dizer que era uma excelente pergunta, porque foi: quer dizer, o miúdo é excluído de poder ganhar um prémio devido a um tema “ofensivo”, logo, na mesma proporção, quem lhe chamasse essa “ofensa”, poderia ser “castigado”, tal como ele foi. E, nesse caso, se fosse a tribunal, tal como passou no crivo do concurso, poderia ter direito a indemnização, se houvesse dolo (esta parte do dolo, tive que perguntar ao chat gpt, esse manancial tremendo da educação de adolescentes, no qual também se podem fazer perguntas jurídicas). Tiveram 20 no trabalho, mas não foi para concurso. E perguntam vocês o porquê, e dou a resposta: por causa dos “parvos” que consideraram o trabalho “ofensivo e discriminatório”, devido à palavra “cegueta”.
Isto proclama o final das comédias de “stand up”!!!
Podem achar que estou a ir contra os princípios da inclusão, mas nestas coisa, é de bradar aos céus! É como aquele livro de Roald Dahl, “Charlie e a fábrica de chocolate”, em que a editora decidiu que a palavra “gordo” passaria para “enorme”, entre outras alterações.
Essa idéia de “proteger” leitores de certas palavras parece bem-intencionada, mas no fundo o que se faz é mexer na realidade da obra e empobrecer o texto. Esse acto, é um género de “esterilização da literatura”. E a literatura não precisa ser limpa de nada, serve para mostrar pessoas, defeitos, exageros e até desconfortos. Se começamos a limpar tudo o que pode incomodar alguém, sobra muito pouco de verdadeiro.
Eu intitulo-me de gorducha, não sou gorda gorda, mas sou gorda, pronto! É a verdade! O meu médico diz-me sempre isso quando vou à consulta, de que podia deixar de carregar um saco de 20 kg Às costas, o que significa que estou 20 kg acima do peso “ideal”! Já agora, gostaria de saber qual o peso ideal para quem toma cortisona, e toda a outra tonelada de medicação que influencia o metabolismo, a absorção dos glícidios e gordura e essas merdas todas…
Chamar “gorda” a alguém que é gorda não é, por definição, um insulto, pode ser apenas um facto, se for assumido pela própria pessoa. Trocar isso por palavras supostamente mais suaves, mas que soam exageradas e, de certa forma, falsas, acaba por ser pior. Se me chamassem de enorme, eu era capaz de ficar ofendida, porque eu sou gorda, mas não sou enorme. Tudo depende do ponto de vista pessoal de cada um.
É por isso que estas coisas de inclusão, quando feitas sem contexto, sem escuta e sem bom senso, acabam por produzir exatamente o efeito contrário.
Não me recriminem já, a inclusão é uma idéia fantástica, e Ponto Final!
A inclusão parte do princípio de que todas as pessoas têm o mesmo valor e merecem respeito. O problema começa quando essa idéia deixa de olhar para pessoas concretas e passa a obedecer a regras rígidas, como se fosse possível resolver o mundo real com um glossário oficial, ou medidas drásticas. Quando isso acontece, deixa de haver cuidado e passa a haver um género de paternalismo moral: dizer às pessoas o que podem ou não sentir, como se não fossem capazes de se defender.
A verdade é que as palavras, por si só, não atacam ninguém. O que conta é a intenção, o contexto, a forma como são usadas, e a relação entre as pessoas. Tratar qualquer palavra ou acto factual como se fosse automaticamente uma agressão é partir do princípio de que somos todos frágeis e incapazes de lidar com aquilo que somos. E isso não é proteger.
No fundo, a verdadeira inclusão não é apagar diferenças nem fingir que elas não existem. É lidar com elas com respeito, bom senso e escuta.
Agora e se em vez de se substituírem palavras, a educação se focasse na defesa dos valores de cada um e no amor próprio? Aplaudo!
Análises SWOT pessoais, para que as crianças conheçam os seus pontos fortes e fracos, e as oportunidades e ameaças que têm, considerando a sua personalidade? Fantástico!
Ensinar educação funcional e empatia? Ensinar a lidar com diferenças e reconhecer ofensas reais e como agir sobre elas? Aprovo mil vezes, e a Dinamarca já o está a fazer!
A humilhação, a manipulação e a intimidação vão existir sempre, porque são questões comportamentais e de dinâmica social, não de vocabulário.
O bullying existe em qualquer contexto, tanto na escola, como no trabalho, online e até em família e só tendo confiança em si próprio é que se sabe contornar o mal estar que ele provoca. E o fundamental é saber lidar com ele, não camuflá-lo em palavras que se podem ou não dizer.
Agora vamo-nos esticar e imaginar um mundo feito pelos Parvos, com parvos e para os parvos?
Imaginam um mundo em que ninguém ganha os jogos olímpicos por causa da susceptibilidade que isso causa aos que perdem, ou maratonas sem linha de meta, porque cruzá-la antes de outros poderia significar superioridade, ou mesmo um derby onde os golos sejam todos anulados, para que não existam vencedores nem vencidos?
E um mundo em que a adaptação para os deficientes são exclusivas a rampas para cadeiras de rodas – estamos quase lá, malta!
Ou a implementação dos “Prémios Trump” dos EUA, à semelhança dos “Prémios Nobel”, porque ele nunca iria ganhar um prémio Nobel? Isto ainda pode acontecer…
Nas escolas, não haver notas, para que os alunos não se sintam inferiores? bom, isso já acontece, não com as notas, mas com os chumbos – hoje em dia, em Portugal, ninguém chumba até ao 9º ano!
E nos tribunais? Se os juízes anularem julgamentos devido a questões técnicas formais (ex: por submissões fora do prazo ou documentação não assinada), em que decisões de pena são anuladas não porque o acusado é inocente em crimes sérios, mas sim porque os detalhes burocráticos levam a uma não acusação? Estamos a assistir a alguns desses, que se prevê que não vão dar em nada!
E Hospitais sem triagem, em que todos os pacientes seriam atendidos por ordem de chegada, independentemente da gravidade, para não ofender quem espera mais tempo?
Com este ensaio de “extremismo parvídico”, verificamos que já estamos mais ou menos um país de parvos…
Esta “Era das ofensas” está a mudar o mundo para pior, está a diminuir uma inclusão de todos, para dividi-lo em inclusões particulares. Mais divisões, numa sociedade que se quer equitativa, não é bom.
Queremos um mundo governado para “os parvos”, em que os parvos estão, utopicamente, sempre felizes, ou queremos um mundo onde temos a liberdade de nos sentirmos melhores ou piores que ontem, porque a vida é isso mesmo, assim como a capacidade de darmos a volta por cima e nos sentirmos bem conosco próprios, no final? Ou não, e de nos sentirmos a maior merda do mundo, porque temos direito a sentir isso, também?
Os “parvos” não merecem todas estas preocupações… Muito menos estas adaptações, que tornam o mundo pior. muito pior.
“Quando um palhaço substitui um rei, o palhaço não se torna sábio, o reino é que se transforma num circo”.

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