Dia Nacional do Doente com AVC

AVC = Acidente Vascular Cerebral.

Não podia deixar passar este dia sem falar desta problemática terrível que assola o nosso país.

Quando fui encaminhada para a Hematologia, já foi depois do meu 1º AVC. Chamo-lhe primeiro AVC porque cerca de 10 meses depois, tive o 2º episódio, que se revelou ter sido um AIT (Acidente Isquémico Transitório), mas que deixou bem mais sequelas que o 1º AVC. e por isso refiro-me a eles como o 1º e o 2º AVC, porque independentemente de como lhe chamam, a verdade é que tanto um como o outro, foram horríveis e intensos.

A minha antiga hamatologista, uma médica fantástica, de nome Rosa Maia, uma vez contou-me que toda a faixa de país que vai desde a Serra da Estrela até ao início de Portalegre, esse rectângulo de país, com excepção da zona do litoral, é a que têm a maior taxa de AVC’s tanto de Portugal como da Europa.

No postEstudo Hematológico e “A Profecia das Barragens” – A crap Inside” falarei dessa sua pesquisa.

Ter um AVC é horrível. É assistir, em primeira mão, as nossas faculdades mais importantes a serem-nos retiradas de um momento para o outro. E isso é das piores coisas que nos pode acontecer.

O equilíbrio, a escrita e a fala foram as primeiras faculdades que fiquei sem ter:

Estava a chegar à Estação de Aveiro, e cheguei à bilheteira, já cansada, pois tinha feito o percurso desde casa até à estação a pé, com a mochila pesada que tinha a roupa para lavar e material de estudo, pois era época de exames.

Estava na fila, e quando chegou a minha vez de comprar o bilhete para Coimbra, deu-me uma tontura, enorme, que me fez apoiar no balcão para não cair, só que não tinha força do lado direito, e comecei a escorregar para o chão. O que me valeu, foi a bondade e simpatia das pessoas que não me deixaram cair. Tentei pedir um bilhete para Coimbra, mas não conseguia falar. Conseguia pensar, na palavra “Coimbra”, perfeitamente, mas não a conseguia dizer, só me saia o “Co” de Coimbra. O senhor que estava na bilheteira tentou convencer-me a ir ao hospital, e as pessoas que estavam próximo de mim e que me tinham ajudado diziam que iam chamar uma ambulância, mas eu, sempre disse que não.

Conseguia pensar, e, conhecendo a fama de então do Hospital de Aveiro, queria era chegar a Coimbra o mais depressa possível, para ir a ao hospital dessa Cidade. Não me recordo como entrei no Comboio, nem me recordo do percurso até Coimbra. Sei que quando aí cheguei, já me conseguia equilibrar e já conseguia andar, ainda que mal. Estava à minha espera um namorado que tinha na altura, e, mais uma vez, não lhe conseguia dizer nada. tentava, mas só me saía o início das palavras que queria dizer, pensava-as por completo, e reconhecia que não as completava, mas não sabia porquê.

Ele levou-me de imediato ao Hospital da Universidade de Coimbra, onde fiz exames, embora não me recorde de nenhum. Recordo-me só que não conseguia escrever . Lembro-me que entrei sem falar, por volta das 14 horas e já saí a falar, de Noite. foi o meu Pai buscar-me, com a recomendação de que devia estar atento a qualquer alteração, com recomendação de regressar caso o episódio acontecesse novamente.

Foi durante a noite. Os meus Pais passaram a noite em branco. Imagino o meu Pai, sentado numa cadeira à porta do meu quarto, até ouvir o grito.

Gritei, pela intensidade da dor de cabeça. logo acorreram ao quarto o meu Pai, a minha mãe logo a seguir, a coxear, tendo deduzido logo o que estava a acontecer, porque já tinha passado pelo mesmo. A minha irmã, muito mais pequena que eu, com 15 anos, subiu à parte de cima do beliche onde dormíamos, retirou-me de lá a braços, e “deu-me” ao meu Pai. Eu com plena consciência de tudo o que se estava a passar. O meu pai levou-me para o Hall, onde ligou para o INEM, para que me viessem buscar. Mas a senhora que atendeu insistiu em falar comigo “para me acalmar”, mas não me acalmou nada, fazia-me perguntas, e como eu não conseguia responder, comecei a pensar que iam esperar até eu falar para me virem buscar. Conclusão: fiquei mais nervosa do que o que já estava, e passei o telefone ao meu Pai.

O acto de dar o telefone com a mão que conseguia mexer, fez-me fez-me perder o equilíbrio nesse momento, e a minha Mãe segurou-me. Sem força alguma no seu lado esquerdo, só tinha reaprendido a andar escassos anos antes, devido ao seu AVC grave. Foi aí que descobri que o amor fala sempre mais alto do que tudo o resto.

Entretanto chegaram os senhores do INEM, num carro. Estavam preparados somente para me dar assistência, mas, dadas as circunstâncias, nem esperaram pela ambulância e levaram-me eles mesmo, para o Hospital. cada um pegou-me numa perna com um braço e seguraram-me nas costas com outro, e levaram-me de escadas, não havia tempo para esperar pelo elevador.

Quando Cheguei ao Hospital, puseram-me numa maca, nas urgências. Eu não conseguia falar, e estava mesmo de frente para os médicos, a vê-los na amena cavaqueira, sem sequer terem olhado para mim, sentados de pernas cruzadas com papéis nas mãos. Isto era o que eu estava a pensar, segundo o que estava a assistir. Eu estava plena das minhas faculdades, só não conseguia falar nem ter equilibrio, e sentia que já não conseguia mexer a mão esquerda. “estou tramada! Vai acontecer-me o mesmo que aconteceu à minha mãe e nem consigo dizer nada!”…

De certeza que ele viu a mesma coisa que eu estava a ver e deve ter pensado o mesmo que eu, porque quando o vejo entrar de rompante nas urgências, agarrar no primeiro bata branca que viu pelos colarinhos, e o ouço dizer “Acudam a minha filha para ela não ficar como a Mãe! A minha esposa teve um AVC neste Hospital porque não teve assistência! Mexam-se!”, e apontou para mim, pensei: “estou safa!”, e aí apoderou-se de mim um sono profundo, e não me recordo de mais nada, até acordar, numa terça feira (ou seja, já tinha passado o final de semana e um dia da semana), e era o dia do meu exame na Universidade…

O meu pai, acabou a ser expulso do hospital, mas foi ele que fez com que eu fosse atendida, mal ele fez isso, vários médicos acorreram a mim.

Esmiuçaram-me durante um mês seguido, ainda internada, e depois tive alta, com consultas regulares.

Noutro post falarei do AIT que tive.

Sequelas? fiquei com sequelas, claro. Nunca foram validadas por nenhum médico, mas explicaram-me, anos mais tarde, face à minha insistência em perguntar sobre esta “nova EU”, que conseguia fazer muito menos do que costumava.

Disseram-me que o local no cérebro onde ficou alojado o coágulo calhou ser no “ponto de parkinson”, e as sequelas que ainda tenho são a rigidez muscular, a da escrita (não consigo escrever devidamente, e escrevo letras imensamente pequenas ao ponto de não as perceber, principalmente quando escrevo depressa), tremo imenso, atrapalho-me a falar e a comer, principalmente quando estou mais nervosa ou mais cansada.

Ainda tive que desistir de tocar Flauta Transversal, porque já não conseguia fazê-lo. E aqui está uma coisa que os médicos fizeram mal comigo, porque sempre que perguntava a um neurologista (e tive vários!) como é que fazia para tornar a tocar flauta, todos me diziam para desistir da flauta e iniciar-me no teatro, sem mais explicações. Vim a saber, muito recentemente, que o teatro ajuda nos processos mentais que desbloqueiam aquilo que este AVC me afetou. Eu, que tinha tido uma formação de Flauta Transversal de anos, pensava: “Teatro, que estupidez!” Se eu tivesse tido conhecimento do “Porquê”, seria diferente.

Para além do AVC me ter tirado tudo o que mencionei, parte da memória procedimental e da memória espacial também ficaram afetadas, o que me faz demorar muito mais tempo a criar um hábito. Por exemplo, a minha dificuldade em cozinhar, por ter uma série de passos (sempre diferentes) a seguir, tal como outro qualquer trabalho diferente em que tenho que cumprir com várias especificidades, é extremamente difícil para mim. Já quanto à memória espacial, justifica o porque é que eu deixo as gavetas e portas da cozinha abertas (Algum médico que diga isso ao meu marido, por favor!), e porque é que às vezes dou o passo maior que a perna, literalmente, e depois sofro quedas aparatosas.

Para evitar tudo isto que passei, por favor, caso sintam algum sintoma como estes que mencionei aqui ou outros, ligam para o SNS 24 ou dirijam-se a um Hospital com a máxima urgência, e tentem indicar o que estão a sentir.

Ter um AVC é evitável e completamente reversível se tratado nas primeiras horas.

Previna-se, não deixe o que aconteceu comigo e com a minha Mãe (a contar noutro post) aconteça consigo. Não deixe passar o tempo crucial para salvar a sua vida.



Respostas de 2 a “Dia Nacional do Doente com AVC”

  1. […] seguimento do post Dia Nacional do Doente com AVC – A crap Inside, Venho contar sobre o estudo que a Dra. Rosa Maia, uma médica fantástica, estava a fazer, de modo […]

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    1. Rosarita, é tão bom haver pessoas que imaginam o mundo como nós! 🙂
      Obrigada por me acompanhares neste percurso.

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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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