No hospital, imediatamente antes de ter a minha 1ª paragem cardíaca, estava ao lado de uma estudante que se tinha tentado suicidar (percebi pelo que os médicos e enfermeiros lhe diziam e diziam entre eles), e estavam a fazer tudo por ela, porque a sua função cardíaca estava a piorar a passos largos. Ela era uma miúda lindíssima, e eu só queria tentar entender como é que uma pessoa (aparentemente saudável, que era o que os médicos diziam) consegue fazer um acto destes.
Era a confusão total, imensos médicos e enfermeiros à nossa volta, as máquinas a apitar constantemente. Era difícil ver quem é que estava a tomar conta de quem, porque as batas eram todas iguais, um rebuliço de carrinhos com medicação, écrans com números vermelhos e riscos verdes fluorescentes, riscos lineares que saltavam subitamente e sacos de soros, com agulhas cheias de líquido, que os médicos injectavam sistematicamente na entrada dos frascos, ou na zona da borracha que une um tubo ao cateter, mais próximo da zona de entrada da veia.
Enquanto os médicos e enfermeiros tentavam saber a causa do seu acto (como se houvesse uma causa plausível para alguém se matar), ela ou chorava ou falava, com voz entramelada. Às vezes dizia palavras díspares, noutras alturas delirava, dizia que queria voar com o pássaro preto, e que o estava a ver, e gritava para a deixarem ir com ele, e, numa altura, fez-se entender: Aparentemente, na cabeça dela, a causa desse acto seria o namorado.
Estava num quarto dentro das urgências, mas nessa altura ainda não havia as cortinas separadoras de camas. Eu, estava do lado da porta e a porta estava sempre aberta, enquanto uns entravam e outros saíam, e eu via algumas camas, do outro lado. Logo, eu via duas decrepitudes diferentes: de um lado, a miúda, que devia ter mais ou menos a minha idade, do outro, a maioria, velhotes deitados nas macas, uns a gritarem outros mortos. Na minha cabeça, os que estavam com os olhos fechados estariam todos mortos. Eu conseguia ver tudo o que estava a acontecer com toda a gente dentro do meu campo de visão, e recordo-me da minha necessidade de me concentrar só numa pessoa, para poder ter controlo na minha mente e não stressar desnecessariamente. Então, como ela estava ali ao lado, acabei por me focar nela. Principalmente porque queria, por força, entender a natureza de uma tentativa de suicídio.
Houve um momento em que a viraram de lado, para mim. Ela ficou a olhar para mim mas sem me ver, e eu não tinha energia para virar, nem a cabeça, nem o olhar. Incómodo. Então, estávamos ali, as duas, deitadas, eu a olhar para ela, ela a olhar para o abismo, até que eu falei. Disse-lhe: “eu estou a morrer. Não deixes que nada nem ninguém dite a tua morte. Tu só morres quando te vierem buscar, não te entregas assim de bandeja. Nunca mais.”, e ela fechou os olhos e começou a chorar um choro contínuo, com as mãos a tentar chegar aos olhos mas a não conseguir devido a ter os pulsos com fita adesiva, que, por sua vez, estava agarrada às grades da cama..
Mal o disse, reparei que não devia ter feito isso. Não se diz a ninguém nem para se matar nem para não o fazer. Embora todos os médicos e enfermeiros que estivessem a tentar manter-nos as duas à vida tenham enfatizado as minhas palavras, e lhe tenham dito que ela me devia ouvir, porque ela tinha acabado com a sua saúde com o que tinha feito.
Eu reparei, quase de imediato, que não era a minha função fazê-lo, mas dela descobrir o amor pela vida.
Viver (e morrer) são as coisas mais fantásticas que existem, mas eu não era ninguém para lho dizer. Ninguém é ninguém para o fazer, e ninguém deve dizer isso a ninguém. Principalmente na situação em que ela estava.
Depois de o ter dito, e de me aperceber que não o deveria ter feito, gostava de lhe ter explicado o valor da vida, a coisa fantástica que é ter uma coisa que depende só de nós, dos nossos actos, de mais nada nem ninguém. Esse sabor de viver, que às vezes sabe a ácido clorídrico ou a merda, e nos corrói e contamina por dentro. Mas que outras vezes sabe a preto e branco, a Verão ou a Natal, ou sabem a um sorriso de orgulho de um pai ou de uma mãe, ou a um beijo salgado, na cama, dado por alguém que nos está a amar, ou sabem a um país estrangeiro cheio de possibilidades e esperanças, ou a gargalhadas dadas com amigos, ou mesmo a um beijo molhado, na nossa cara, dado por uma criança pequena (nessa altura, para mim, eram do Samuel e da Laurinha). E que os sabores vão variando, e que, por muito maus que esses sabores sejam num determinado momento, depois da tempestade vem sempre o sol. Nunca existe razão para se acabar com um mundo de futuros sabores, e que são tantos, mas tantos!
E que esse mundo de imensas possibilidades não pode ser diminuído a um só sabor já amargo, que passou. Já passou, já é passado, já não existe! E mesmo que se torne a viver esse sabor, já não se vai sentir da mesma maneira, porque esse sabor mau já nos mudou, para sempre, e é isso que é crescer.
Eu devia-lhe ter dito isto, ter explicado, de alguma maneira, que a morte nunca é a solução, mas de outra maneira. Mais subtil.
Mas também não tinha energia para o fazer.
Gostava muito que essa “miúda” lesse isto. é um género de pedido de desculpas…
Logo a seguir, fui eu que senti o sabor da morte: um sabor ácido e quente que me correu depressa nas veias até ao coração (já grande), que subitamente, o fez crescer ainda mais, tentou bater, mais 2 ou 3 vezes (parecia que tinha um coração enorme, tão grande que não conseguia bater, porque não se conseguia expandir), e essas últimas batidas não foram batidas normais: pareciam em câmara lenta, senti um “brlop… brlop… brlop… e depois morri. Ainda ouvi o piiiiiiiiiiiiiiii da minha máquina (que podia não ser da minha, mas de outra pessoa), até que o deixei de ouvir.

Deixe uma resposta para Discursos de Ódio – A crap Inside Cancelar resposta