25 de Abril. (post grande)
Esta data faz-me recordar sempre dos meus pais, porque todos os anos, os almoços e jantares deste dia eram passados a ouvir relatos sobre o 25 de Abril. Quando era pequena, vibrava com as histórias. Na adolescência, achava que já tinha ouvido tudo o que eles tinham a dizer, logo, achava a maior seca do mundo. Já quando adulta, bebia tudo o que eles me diziam, porque eram histórias incríveis, vividas na 1ª pessoa.
Os meus pais eram contadores de histórias excelentes, logo, aquilo dava pano para mangas, conseguiam contar tudo ao ínfimo pormenor, coisas antes do 25 de abril, durante esse dia e depois, e claro, essas histórias iam habitando a minha mente:
O que a minha mãe tinha sentido quando foi quase presa em Coimbra, quando estava aqui a estudar, por estar juntamente com 2 amigas – aparentemente, 3 pessoas já era um “ajuntamento”, e não eram permitidos. Que passou a noite de 24 de Abril de 1974 acordada a noite toda a ouvir rádio, e, de manhã, e porque no rádio pediam para ninguém sair de casa, ela agarrou no rádio debaixo do braço (que na altura era um monstro) em detrimento da sua pasta “do costume” e levou-o para a escola e foi dar aulas à mesma, porque conhecia a realidade das vidas duras dos pais dos seus alunos, sabia que iriam estar presentes todos os miúdos. Ainda sinto o seu cansaço quando chegou à rua da escola esbaforida porque o rádio era pesado e todas as crianças vieram a correr ao seu enlace para a ajudarem, e soube da aula que deu, e do teor das composições que mandou fazer (“todos a correr Campo Pequeno abaixo, com as bombas a correr atrás deles”, foi uma frase de uma dessas composições que me ficou). Que antes do 25 de abril as condições escolares eram tão más que, numa suposta escola em que devia dar aulas, estavam nesse edifício burros. mas burros mesmo, a comer palha, e teve que ir dar aulas aos miúdos para uma casa que o senhor mais rico da aldeia lhe cedeu, que no inverno o frio era tanto, que preferia dar aulas no seu próprio carro, com o aquecimento ligado, com todos os miúdos encavalitados lá dentro que nas escolas geladas.
já o meu pai era mais comedido com os relatos quando éramos pequenas (porque as suas vivências eram as da guerra do ultramar), mas, já adulta, soube que tentou fugir para França com um amigo depois de fazer a tropa. como não conseguiram, decidiu partir para o centro da tempestade: Arranjou trabalho nas finanças em Lourenço Marques, (hoje Maputo), em Moçambique, e ainda esteve a trabalhar aí mais de um ano, para depois ser obrigado a ir para a guerra. Contou-me que desarmava minas e armadilhas, chamavam-no de Alferes Trotil, e que um dia um “irmão” teve que ser evacuado de helicóptero porque tinha pisado uma mina e dizia que lhe doía o dedo do pé, mas que já não tinha perna. Que teve que ser julgado em tribunal de guerra porque um dia, quando chegou ao quartel (tinha passado vários dias em campanha sem dormir), esqueceu-se de pôr uma pistola no descanso, e enquanto colocava as armas em cima da mesa, uma delas disparou, fez ricochete e raspou na perna de alguém. (guardou todos os documentos que indicavam que tinha sido ilibado e era inocente e mostrou-mos), mas esteve os dias seguintes (dias do julgamento) preso e cheio de medo do que lhe poderia suceder, porque poderia ter ido preso por muito tempo nas prisões de Moçambique, que não tinham absolutamente nenhumas condições. Que um dia experimentou snifar cocaína e que, depois do kick, desatou a atirar com a metralhadora para as árvores, até que viu um macaco com as mãos juntas e de cabeça baixa, como se estivesse a rezar para que não o matassem, e que teve um efeito tão poderoso nele que nunca mais tocou em droga alguma, que adorou os tempos após o 25 de Abril (ele teve que ficar em Moçambique até ao final do ano de 1974), e que foi nessa altura que fez amigos entre os locais. Foi visitá-los anos mais tarde (já estava eu a acabar a universidade) e ficou imensamente triste por ver a degradação dos edifícios, infra-estruturas e de tudo, no geral, embora a alegria dos locais se mantivesse. Acho que, a sua melhor história, ou a que mais me tocou, foi o relato da 1ª vez que os meus Pais foram votar livremente. Tinham casado recentemente, e o meu pai emocionou-se a colocar a cruz no boletim de voto. Pensar que houve um dia em que votar em democracia era uma novidade que emocionava pessoas e que para que isso acontecesse ele tenha que ter passado por tudo o que contei aqui e tantas outras coisas más que passou é, para mim, o estatuto de que as coisas estavam mesmo muito más.
Ambos falavam da tremenda falta de liberdade, que antes do 25 de Abril de 74, os meus avós ouviam rádio debaixo dos cobertores, porque se descobrissem que eles ouviam os canais ilegais, iam presos, que mandavam vir livros proibidos de familiares de França, mas que eram bastante difícil de passarem a fronteira com eles, e que, quando passavam, tinham que fazer esconderijos nas suas próprias casas, pois se fosse lá a PIDE (que podiam ser amigos, colegas e pessoas que visitavam as suas casas, pois estavam escondidos e misturados na sociedade), podiam ser presos, que não podiam confiar em amigos ou mesmo em família afastada, porque não se sabia se poderiam ser da PIDE, que as músicas do Zeca Afonso eram proibidas, que uma mulher solteira se quisesse ir estudar ou trabalhar e viver fora da casa dos seus pais, tinham que ter sempre consigo a autorização do pai, e se fossem casadas, tinham que ter a autorização do pai e do marido, ou seja, eram sempre a propriedade de alguém, e, que, por isso, a educação que o meu pai nos deu era que tínhamos que ser sempre independentes, nunca depender de um marido, e que para isso, a sua vida inteira foi dedicada a acumular bens imóveis para que as filhas tivessem futuros confortáveis.
E os relatos de fome eram insuportáveis de ouvir, da família da minha mãe não ouvia esses relatos, porque tinham mais posses, mas da família do meu pai sim, os meus avós eram ambos agricultores e , muitas vezes só tinham uma sardinha para uma refeição para a família inteira. O meu pai, como não dava uma para a caixa na agricultura teve que ir para o seminário (que na altura não se pagava), o que foi um alívio para os meus avós porque era menos uma boca para alimentar, que graças aos padres Jesuítas teve uma educação fantástica, onde andou durante anos até começar a dar missas e se ter apercebido que não tinha vocação para padre porque era demasiado agarrado às suas posses materiais, e, por fim, foi o único da família a tirar um curso superior (embora tardiamente, já depois de nós termos nascido), e que por isso eu enjoei ao cabrito (uma história a contar mais tarde)
Todas as nossas vidas, de uma maneira ou de outra, são tocadas porque um dia houve uma ditadura. As vidas mais recentes, as da geração que não ouviu falar dessas histórias na 1ª pessoa, já consideram esta liberdade um dado adquirido, que não valorizam. Os colegas do meu filho (era meu sobrinho, mas agora adoptei-o), um dia quando votarem, votarão todos num qualquer extremista (segundo conta ele), e isso é assustador.
Por isso, vamo-nos lembrar que houve um tempo em que todas as liberdades que temos hoje não seriam possíveis, em que nunca poderia aqui estar porque proibir-me-iam de escrever este blogue, ou a vocês de o lerem, ou lerem outra coisa qualquer que criticasse esse sistema, em que um deficiente era um coitadinho para o resto da vida, e como propriedade e responsabilidade de uma determinada pessoa ou agregado, para além de não poder ter qualquer vontade (ou liberdade), tinha que viver as vidas dos outros, não lhe sendo permitido viver a sua. Muitos morriam antes de nascer, à nascença, ou mesmo depois (a minha bisavó materna teve 7 filhos e só lhe sobreviveram 2, calcula-se que pela mesma deficiência que eu e a minha mãe padecemos), porque as condições de saúde nessa altura eram imensamente precárias.
O lema “25 de Abril Sempre”, faz todo o sentido para mim, porque é graças à sua existência que estou aqui… irei contar noutro post a história do meu nascimento, e porque a possibilidade de o meu pai poder ter tido a liberdade de exigir uma coisa ao hospital onde nasci fez toda a diferença na minha vida e na vida da minha mãe, e dos que nasceram depois de mim.

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