Um banho muito difícil. Foi antes do transplante e tinha acordado de um coma de mais de um mês:
Depois do meu pai me ter ido ver (Felicíssimo – a contar num outro post), transferiram-me para a cardiologia A – a que não era a “minha” cardiologia…
Fiquei num quarto com mais 6 camas, o que era bom para mim. Nunca tinha gostado de ficar sozinha, sempre achei que podia ajudar os outros à minha volta – algumas vezes, ajudei.
Pedi à enfermeira para ir tomar banho, e ela disse-me: “Aqui os banhos são só de manhã”. E eu perguntei. E amanhã, tomo banho? “Logo vemos”, foi a resposta.
Quando um doente ouve um “logo vemos”, detecta logo um não disfarçado. Já tinha havido vezes em que tinha caído na esparrela. Mas esta, definitivamente, não ia ser uma delas.
Então, o meu foco, durante toda a noite, foi sair da cama para me pôr pronta para ir tomar banho no dia seguinte: sentar-me numa cadeira.
As luzes do quarto fecham às 21:00, mas as da enfermaria só fecham às 00:00. Das 21 à meia noite e tal, consegui dormitar um bocado.
Só que eu tinha estado num coma de mais de um mês… não conseguia mexer as pernas, e, se caísse da cama, o tombo era grande – não sei porque é que os enfermeiros põem a cama no máximo de altura, que raio!
Quando me comecei a mexer é que me apercebi dessa realidade: qualquer movimento custava. Arrastei-me pela cama para trazer a cadeira, que estava ao fundo da cama, para a frente da minha mesa de cabeceira, o meu lado direito. Só isso, durou mais ou menos uma hora. Depois, tive que me colocar em posição para me conseguir sentar. Tentei fazê-lo de frente para a cadeira, mas não dava, não me conseguia virar, dar a volta. Então, lá me icei para a cama, rodei (atenção, todos estes passos eram feitos com muito esforço, e durante um tempo considerável, porque a cada movimento, tinha que parar para apanhar fôlego), e, muito devagarinho, comecei a escorregar, virada de costas para a cadeira. Verifiquei que apesar de me conseguir pôr em pé, não conseguia dar passos, nem tinha força para me sentar (não dominava a força nos joelhos). Então, consegui arrastar a cadeira para trás, um bocadinho – só o suficiente para que quando me atirasse para trás, não caísse com o rabo nas costas da cadeira, o que me ia fazer virar a cadeira e bater com a cabeça no chão.
Feitos todos os cálculos, lá me consegui sentar na ponta da cadeira, apesar de a cama estar sempre a dançar, e não me dar estabilidade nenhuma enquanto me segurava. Depois, tentei consertar-me na cadeira e tentei arranjar a melhor posição para poder descansar debruçada na cama.
Entretanto olhei para o relógio da parede e eram sensivelmente 04h. Ainda me dava para dormir mais 3 horas, pensei.
Mal me encostei no colchão, adormeci.
Acordei por volta das 07:00, com muitas enfermeiras e uma médica à volta da paciente que estava na cama à esquerda da minha, mesmo ali ao lado. Tinha morrido durante a noite.
Era uma senhora, bastante forte.
São coisas que me custavam sempre muito, porque eu era a pessoa que podia carregar na campainha. Naquela sala eu era a pessoa mais lúcida, e achava-me com responsabilidade por todas as outras (sempre quis estar ao pé de outras pessoas – muitas vezes, velhotas, para poder ajudar, para me sentir, de certo modo, útil, num momento em que não tinha utilidade nenhuma).
O facto de ter estado tão atarefada nessa noite, impediu-me de ouvir algum indício do que a senhora estava realmente mal. E por isso não chamei ninguém. Pensei de imediato no meu egoísmo…
Estava a auto mutilar-me mentalmente, quando uma das enfermeiras, me perguntou: “o que é que está a fazer sentada?” e já a chamar uma colega para me porem de volta na cama.
Eu respondi: “eu não vou para a cama, porque tenho que tomar banho”.
Elas desconversaram, e já estavam a desfazer o novelo que fiz durante a noite (lençóis e colcha), para me porem na cama e me darem banho na cama, para depois fazerem a cama novamente, e eu repeti o que tinha acabado de dizer, e a seguir acrescentei: já não tomo banho há 2 meses (exagerei). Eu daqui não saio. E vou tomar banho hoje.
“ah, mas nós não temos condições de a levar para o banho, toma banho na cama”.
Quer dizer, eu estive quase a noite toda para me sentar, esta senhora morreu sem eu ouvir, logo, não pude chamar ninguém, e agora não vou tomar banho?… pensei. Era só o que faltava!
Disse, com muita calma (nem me reconheci!):
Todas as enfermarias têm condições de levar uma pessoa para tomar banho (eu tinha passado anos em enfermarias diferentes, e, como sou observadora, tinha conhecimento disso). Quando saí dos cuidados intensivos, perguntei ao médico se podia tomar banho de chuveiro (verdade), e ele disse que podia, portanto, ou me dão banho a bem, ou me dão um telefone e dão-me banho a mal (fui prepotente, mas às vezes é o que precisamos de ser)…
As “condições” era só uma cadeira de rodas de banho – uma cadeira de rodas toda em plástico rígido, mas cujo assento era a base de uma sanita. E uma pessoa para me levar até ao banho.
Eles tinham, claro. Depois da pergunta da praxe à médica, lá me puseram na cadeira-sanita, e levaram-me para a zona dos banhos. Claro que fui das últimas a tomar banho, mas eu sabia que o meu despotismo tinha um preço a pagar.
Os banhos, depois destas coisas acontecerem, lavam mesmo. Acho que, durante o acto, fazem compensar por tudo o que passou – lavam tudo: as memórias de tudo, e parece que fica tudo mais leve.
A enfermeira lavou-me o cabelo, as costas, as pernas e os pés, havia uma pega na parede, que agarrei e consegui-me levantar com relativa facilidade (assustei-me com a essa facilidade, mas a verdade é que estava tão magra, que até uma criança me conseguia levantar), mostrei-lhe que conseguia ficar de pé e de me sentar na cadeira, e pedi-lhe uns minutos para acabar de me lavar. Faltava o peito, o pescoço, a cara, as axilas, a barriga e as zonas íntimas. Convenci-a com: “Eu sei que tem mil e uma coisas para fazer. Eu consigo fazer o resto. E se precisar de ajuda, (olhei para a campainha, que estava à mão), e fiz uma cara e um gesto a apontar para a campainha, acompanhado de “tchanan!”, e ri-me. Ela perguntou: “de certeza?” eu disse: claro!
Os enfermeiros e auxiliares não sabem o material raro que aqui têm – eu sou daquelas pessoas que pode estar a morrer, mas que, mesmo assim, faz tudo sozinha, pensei para mim enquanto ela se dirigia à porta.
Antes de abrir a porta, virou-se e disse: eu vou estar por aqui, qualquer coisa, basta chamar, nem é preciso tocar à campainha. Eu perguntei: dois meses sem tomar um banho destes, dá-me mais tempo de banho, não dá? E fiz uma cara de quem já está a pisar o risco. Benditas caras que faço, porque ela riu-se enquanto saía.
Mal ela saiu da casa de banho, as lágrimas que já me estavam a correr (camuflados pela água que me caia na cara), saíram de jacto… chorei, primeiro, sem fazer nada, só ali, apoiada à parede. Sei que não foi um choro de desespero, do género dos que já tinha passado. Foi um choro de desabafo, de reconhecimento de tudo o que eu já tinha passado. Eu tinha claramente chegado ao fundo – tinha tocado na morte. Não tinha sido a primeira vez, mas foi a que mais me fez sentir a impotência de que eu não era nada. As outras vezes em que toquei a morte tinham sido demasiado rápidas, mas agradáveis (a contar num outo post).
No final de ter chorado todas essas coisas, chorei de gratidão por não ter morrido, por superação. Talvez fosse o choro, mais que o banho, que me fez lavar melhor. Não expulsei demónio nenhum, mas fez-me tão bem!
Só depois de ter chorado tudo isto, de ter soluçado, com alguma parcimónia, porque ali à distância de uma porta e alguns metros, estavam pessoas que me podiam ouvir (eu conseguia ouvir as empregadas a lavar as zonas de banho, pelo que a passagem do meu choro era fácil de adivinhar se alguém estivesse preocupado em ouvir) é que me comecei a lavar. Lavei novamente o cabelo, a cara e o pescoço. Depois passei para as axilas e peito. Quanto passei no peito, lembrei-me que quando acordei do coma, de que tinha passado um dia inteiro a pensar que já tinha sido transplantada, e, embora não tivesse cicatriz, pensei que tinha sido transplantada por laparoscopia, e, mesmo ainda estando a chorar, ri-me da minha maluquice. Ao lavar a barriga, pensei na outra Ana, a que estava ao meu lado, quando estive em coma. Chorei ainda mais, a pensar na vida dela, e na sorte que tinha em poder dar a vida pelos filhos. Depois lavei as zonas íntimas, e recordei-me quando pensei que tinha estado grávida, quando afinal era a outra Ana (contarei num outro post). Chorei durante o tempo necessário, e fiquei bem lavada.
Quando a enfermeira abriu a porta, as lágrimas ainda me caíam pela cara.
Mais que a ponta dos dedos, estava com as mãos encarquilhadas pela exposição à água, depois de tanto tempo sem contacto. Disse-lhe: está quase. ela entrou, eu fechei a torneira, peguei na toalha, e limpei-me. Depois ela limpou-me onde eu não conseguia chegar, ajudou-me a vestir, e eu chorei novamente. Sem barulho algum. Tinha passado anos a tomar banho na cama, dados por enfermeiras e enfermeiros por não me ser permitido levantar, e nenhum me custou tanto como este – Era difícil precisar desse serviço. Era a primeira vez que estava a precisar que alguém me vestisse e ajudasse a tomar banho, estando eu de pé e, aparentemente, funcional. Outras enfermeiras, perguntar-me-iam o que se passava, e tentariam desdramatizar. Esta, nem pio.
Acha que podemos sair? Só falta lavar este chuveiro, disse ela. Eu anuí, ainda as lágrimas me caíam.
Levou-me para o quarto, ajudou-me a deitar, passou-me a mão na testa e disse: vê se descansas.
A melhor enfermeira do mundo, sem dúvida.
Eu, agradeci-lhe, com os olhos cheios, virei-me para o lado esquerdo, o lado que estava vazio, e continuei a chorar, a pensar que depressa seria ocupado.
PS: enquanto escrevi este post, chorei desde o início do banho, até terminar o texto. E continuei a chorar por mais um bocado.

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