Peregrinação à Nossa Senhora da Asneira

Esta é a altura das peregrinações a Fátima, e este post não tem nada a ver com o facto de eu ser deficiente. É mais um desabafo que outra coisa.

Achava que as pessoas que iam/vão a Fátima a pé eram seres mais evoluídos do que eu, no sentido em entender que a sua missão seria mais elevada do que a minha, e por achar esse sacrifício algo tão difícil de fazer (algo que não conseguiria fazer no tempo estipulado pelos peregrinos – que são poucos dias), que julgava que somente as pessoas com muita fé conseguiriam ir a Fátima a pé.

Eu própria, já fiz essa promessa, mas nunca me coloquei em condições de a cumprir, porque nunca achei que tinha condições para ter sucesso – físicas ou de integridade para com Deus.

Sou uma católica da treta: não vou à missa, quando vou, procuro a menor moeda que tenho na carteira para dar, não rezo diariamente, as duas únicas orações que sei são as que aprendi no 1º ano de catequese (tive que escrever uma cábula na mão quando fiz o crisma, e ainda não sei o credo de cor), e a única coisa que faço em prol da religião, é ter uma catrefada de bíblias em casa, todas que herdei dos meus pais, mas que nunca uso.

Ou seja: acho-me uma fraude – Qualquer religião que seguisse, devia ofender-se pura e simplesmente por esse facto.

Mas, é-me impossível distanciar-me completamente da religião, porque ainda estou viva, e isso, sim, acredito que seja um feito não humano.

Não consegui não me casar pela igreja, não consegui não baptizar o meu sobrinho, não obrigá-lo a fazer a 1ª comunhão (é uma coisa bastante difícil, porque uma pessoa que não tenha os hábitos do cristianismo, de repente fazer o outro cumprir esses mesmos hábitos, é obra…), face à necessidade de colocá-lo num colégio, nem considerei a possibilidade de pô-lo num que não fosse católico, e inclusive, considerei o seminário como uma possível escola para ele. Também não consigo ir à aldeia onde estão os meus pais e a minha irmã enterrados sem ir ao cemitério, pelo menos para rezar (as duas orações que conheço) por eles.

Acho, fundamentalmente, que sou cristã só pela forma de ser: tento ser o meu melhor todos os dias. convenço-me todos os dias que sou a pessoa mais feliz do mundo, educo o meu sobrinho para ser uma pessoa boa, para ser feliz, porque ser-se feliz é a base principal de onde nascem coisas boas. Acredito mais no caminho percorrido do que se vou à missa todos os domingos. Quando preciso pensar em coisas fundamentais da vida, aí, vou à igreja quando posso e, no fim, Rezo. Parece que me ouço melhor a pensar, e aproveito para rezar pelas pessoas que já não tenho aqui comigo.

A minha religião, passa por tentar não ofender, tentar participar nas dádivas ao outro que tem menos que eu (e não à igreja), tentar cumprir os mandamentos de Deus… Tento, porque muitas vezes não consigo! E é por isso que não acho que tenho um coração suficientemente puro que me faça ir a Fátima a pé sem que me sinta uma autêntica hipócrita. A mesma coisa acontece quando, ocasionalmente, vou à missa: Nunca consigo comungar, porque acho que não tenho a minha mente limpa o suficiente, porque não sou suficientemente boa. E, pior! Porque adoro óstias! Quando era pequena, roubava-as e comia-as escondida, e só não vou direitinha para o inferno, porque ainda não eram benzidas….

Então, para mim, a fé, é uma coisa bastante séria, é, acima de tudo, um caminho. É fazer o melhor que posso, enquanto o percorro. Acima de tudo, é acreditar em mim, para poder acreditar em algo maior que eu. E acreditar que o bem que faço por muito pouco que seja, pode impactar o mundo em que vivemos.

Outra coisa muito séria, para mim, é o meu trabalho. Confesso que agora estou muito mais despreocupada, mas ainda assim, gosto de cumprir as regras e que os outros as cumpram.

Eu trabalho nas obras. As obras encontram-se sinalizadas, vedadas e limitadas. Só as pessoas que trabalham na obra devem entrar, os restantes devem abster-se de o fazer (e atenção que a palavra “dever”, é no sentido da legislação: é uma obrigatoriedade), pois há trabalhos, máquinas, equipamentos, andaimes a ser montados e desmontados, terras a ser retiradas de taludes, etc., e constrangimentos vários, inerentes às obras em si.

A sinalização que se encontra em todas as entradas indica obrigatoriedade de entrar com os EPIs necessários, nomeadamente os básicos, que são capacete, colete e botas de sola e biqueira de aço.

Ontem, fui maltratada, em obra, juntamente com outra colega:

Uns (cerca de 10) peregrinos decidiram entrar na obra, apesar das nossas advertências. Eram praticamente todos homens, e queriam cortar caminho, com o objectivo de andar menos.

Inicialmente tentaram apelar à sua condição de peregrinos, disseram que vinham de um local relativamente próximo, e que já tinham andado “tanto”, se eu não podia ser solidária com eles. Como não anuí, partiram para a violência verbal.

E no fim, disseram: “e nós vamos entrar, quer queiram, quer não… Chamem a polícia, se acharem que estão a fazer bem!”

Questionei a crença deles, de imediato:

Que fé é esta, que faz ultrapassar tudo e todos, para andar menos, quando de certeza que fizeram uma promessa que seria “ir a Fátima a pé”? ou seja: andar, do ponto A ao ponto B? Podem-se fazer atalhos, retirando km àquilo que se prometeu andar, nomeadamente esforço? E, quer dizer, do local de onde vinham até Fátima, seria cerca de o dobro do caminho… será que o sofrimento de já terem andado esse “tanto” que afirmavam, permite que tratem mal os outros, pelo caminho?

Ou será que o objectivo maior seria chegar a Fátima, indo a pé, por muito mal que fizessem, por muitas pessoas que maltratassem, por muito que estragassem, e, por fim, por muito que se magoassem?

Sim, porque o meu receio maior, era que se magoassem – não tinham capacete nem botas adaptadas para uma situação de obra, e se desgraças acontecem com pessoas que têm formação, e todos os meios para estarem em obra, desgraças muito maiores acontecem a quem não tem esses meios e não sabem que não podem subir aquele monte de terra, porque a seguir está uma giratória e podem levar com o balde na cabeça…

Não o consigo fazer, mas concluí que poderia começar a comungar à maluca, que poderia ir a Fátima a pé à vontade, roubando, pelo caminho, integridades individuais, que poderia ultrapassar qualquer obstáculo, passando por cima de tudo e todos, porque afinal, o objectivo é chegar lá, não é o princípio de fazer tudo como deve ser pelo caminho.

Acho que vou mas é pagar a côngrua, para poder ir para o céu.

No final, mandei uma mensagem à minha equipa a contar o que me tinha acontecido. Para rematar, acrescentei uma frase pouco católica..

Escrevi “Eles estavam a ir para Fátima. Deviam ir era à *merda*!…”



Respostas de 3 a “Peregrinação à Nossa Senhora da Asneira”

  1. Olá sou o Martinho, da Ilha. Gostei do testemunho e da escrita descomplexada e presente. Abraço para os dois…três!

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    1. Obrigada, Martinho. abraço para ti!

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  2. […] e todos são difíceis de ultrapassar. Aconselho-vos a ler alguns posts deste blog (como “peregrinação à nossa senhora da asneira“), por exemplo, porque eu trabalho, pago contas, pago impostos, cumpro com todas as minhas […]

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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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