Sim, hoje o post é sobre mamas.
Julgo que não existe palavra que tenha tantos sinónimos: mamocas, seios, peitos, tetas, busto, Airbags, balões, prateleira, e isto se não entrarmos em contexto de fruta, porque se formos por aí, vai desde os melões, passando pelas meloas, e a partir daí vão diminuindo, até chegar às uvas.
Eu, antes do transplante, e provavelmente até um ano depois do transplante, (até a cortisona dar o kick no crescimento das minhas mamas), pertencia a uma nova categoria: a das borbulhas (o equivalente, provavelmente, a mirtilos. Pequeníssimos. Os do fundo da caixa…). Ler Odeio-te, meu amor… – A crap Inside
Daí, ter sempre suspeitado que estava no finzinho da fila quando Deus andava a distribuir mamas.
Mal eu sabia da verdade:
Sim, eu estava no fim da fila, e Deus lá me deu as borbulhas, mas, entretanto, olhou melhor para o fundo do saco, e viu lá mais uma. Achou que estava a ser injusto comigo, por me ter dado a coisa mais pequena que existia no universo e lá me deu a que estava a mais no saco, sem instruções de uso, como dividir, nada…
Ou seja: Quando fui fazer a minha 1ª mamografia e eco mamária, já depois do transplante (porque os transplantados cardíacos tomam medicação que pode favorecer o aparecimento de cancros, pois não é normal fazerem-se mamografias aos 28 anos de idade), estava a médica a faze-me a eco mamária, depois da mamografia (em que as borbulhas eram impuxáveis e só dava para fazer a mamografia ao mamilo), eu gozava com o facto de praticamente não ter mamas nenhumas, e enquanto ela dizia “aqui não há nada” (a referir-se ao cancro), e eu respondia “sim, nada… de nada, nem mamas!”, e coisas do género.
De repente, reparei que ela viu uma coisa estranha, no ecógrafo. É claro que eu estava com receio de me ser detectado um cancro, não estava era preparada para a cara da médica… não era uma cara assustada, ou de constatação de algo mau, era de curiosidade, pelo que, foi andando com a ponta do transdutor (a ponta móvel do ecógrafo) para um sítio onde, supostamente, não seria o lugar de uma mama. E depois, a surpresa, estampada na sua cara, quando disse: “tem aqui outra mama!”
Uma pedra gelada caiu-me no estômago… eu tinha casado, à pressa, muito recentemente, para que o meu marido pudesse concorrer para o continente no ano seguinte, apoiado no meu estatuto de deficiente. Apesar de ter sido um casamento programado, foi planeado numa semana, e aconteceu no civil, com os pais, padrinhos e os amigos mais chegados.
Eu sabia que várias pessoas já o tinham confrontado com a minha doença, não gostando da ideia do nosso casamento. Inclusive a directora da sua escola, que lhe tinha perguntado se ele queria ter o fardo de estar casado com uma pessoa deficiente, e com tantos problemas (naquele ano eu tinha entrado e saído de um coma, estado 6 meses internada com uma infecção pulmonar grave e feito o transplante).
O meu marido estava longe, a dar aulas numa ilha portuguesa, não estava ali “à mão de semear”, para que lhe contasse de imediato. Então, esperei até à Páscoa para lhe contar.
Estava cheia de medo que ele invocasse qualquer lei da anulação do casamento, pois quando ele tinha casado comigo, eu teria, alegadamente 2 mamas e no momento tinha 3. Nem sei se é motivo de anulação de um casamento, mas na minha cabeça, havia essa possibilidade…
Chegada a Páscoa, falei com ele, com muito cuidado.
Então, comecei pelo início: contei-lhe que sempre tinha tido um quisto sebáceo na axila, e que agora houve um diagnóstico diferente. Contei-lhe tudo com o fundamento de o preocupar imenso, para que, no final do “grande susto” saísse um “Ah, é só isso? Que alívio!”
Disse-lhe que me doía, e que tinha ido fazer uma mamografia e ecografia mamária, e o que viram poderia ser um factor de preocupação (na minha cabeça, a preocupação seria a anulação do nosso casamento).
Ele sabia dos medicamentos que favorecem o cancro, e comecei a vê-lo a desesperar, a não me querer olhar nos olhos…
Até que lhe disse: esse “quisto sebáceo” não é um “quisto sebáceo” (fiz mesmo as aspas com as mãos), é uma mama. Eu tenho 3 mamas.
A surpresa na cara dele transformou-se em alegria quando lhe perguntei se havia algum problema, e foi assim, que ele disse uma das frases mais memoráveis do nosso casamento, e que nunca irei esquecer:
– O quê? Problema? Aquilo que um gajo mais deseja é ter uma mulher com 3 mamas!
Obvio que, depois de a cortisona ter dado o pontapé de saída, elas começaram a a crescer (Ler Odeio-te, meu amor… – A crap Inside), e continuaram. De uma copa A negativa, passei para uma copa B favorecedora, e cresceram as 3 por igual, logo, comecei a ter problemas numa (na extra), a tal ponto que terei de a retirar. A operação era para ser esta semana, mas foi adiada pouco mais de uma semana porque uma senhora urgente, com cancro, teve que ir na minha vez (para retirada de mama). Mas acho que fizeram mal o planeamento, porque de bom grado lhe dava a minha…
Assim, tenho-a para venda, no OLX, para a melhor oferta.
Entretanto, nestas mamas vestigiais (como lhe chamaram, embora não seja só um vestígio de mama, é mais que isso), o mamilo fica, normalmente deslocado e situa-se algures desde o pescoço até à barriga. No entanto, não tenho nenhum sinal protuberante nessa zona, e só tenho um sinal protuberante, que fica situado numa bochecha, da cara (Ler Os “parvos” – A crap Inside), pelo que, às tantas, ando para aqui com um mamilo a mais à vista de toda a gente.
E é assim, que encerro este post , com o fim de uma era, a das minhas 3 mamas, para grande alívio meu e grande tristeza do meu marido. A partir de meio da próxima semana semana, serei uma pessoa um bocado mais “normal”, dentro da anormalidade que me caracteriza: 2 mamas, 3 mamilos…

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