
O Abandono é igual para todos
O interior de Portugal não está apenas cansado. Está completamente esquecido.
E eu reconheço esse cansaço como quem sente a exaustão no próprio corpo. Mesmo já não vivendo lá. Mas sei o que significa ser deixada para trás, desgastada, ignorada. O meu corpo não funciona da mesma forma que as pessoas “normais”, cansa-se com o calor, com o frio, com subidas, com descidas, a sair e a entrar no carro, a tomar banho, a vestir-me, a calçar-me, dias anormais que para outras pessoas são só dias (preciso de dias com 30 horas só para mim!!), as horas a mais que são dadas, não porque seja sensato, mas porque a vida não espera, só precisa que dê, sem sequer perguntar…
Viver com a minha condição ensina brutalmente que, apesar do evento extremo matar, o que é difícil suportar é o desgaste acumulado, é o esforço contínuo sem recuperação, é trabalhar para lá do que o corpo permite porque o sistema não prevê outra hipótese, é confundir resistência com virtude quando é apenas abandono prolongado. E o interior é tratado como eu muitas vezes sou, funcional o suficiente para não ser prioridade: enquanto não cai ninguém ajusta nada, Enquanto responde, tudo fica como está. Mas há um ponto em que não há heroicidade nenhuma em aguentar mais, e este é esse ponto. Quando cai de repente, em situações como estas que Portugal viveu (a tempestade Kristin, os incêndios de 2017), antes, vai-se desgastando, aguenta mais um verão difícil, mais um inverno complicado, enquanto os serviços vão diminuindo. Acaba por ser um esforço contínuo sem recuperação. Mais um fecho, mais uma promessa adiada. Tal como eu aguento mais uma semana cansada, mais um esforço que sei que não devia fazer, não só por falta de força em si, mas por falta de alternativa.
Enquanto o interior está em guerra aberta com o próprio abandono, com o calor que mata, com o frio que congela, com estradas impossíveis, com serviços que não chegam, com a negligência institucional que custa vidas, o país gasta milhões, em guerras longe daqui, em conflitos que não nos protegem e que não nos salvam, e ninguém parece achar estranho… Não pertence o interior de Portugal a esta Europa? Mais, a esta União Europeia?
Quem vive no interior é tratado como cidadão de segunda, paga os mesmos impostos que cidadãos de primeira, mas recebe menos país: menos transportes, menos estradas em condições, menos saúde, menos educação, menos cultura, e, à medida que o tempo vai passando, menos justiça. E atenção que isto não é retórica, é matemática pura, e não é justo. Quando só existem contas de subtrair e dividir, o resultado é catastrófico.
Em 2017 o interior não ardeu porque fosse fraco, ardeu porque estava exausto, mantido anos a fio em esforço contínuo, sem descanso, sem prevenção a sério, sem margem para falhar… Um corpo que já está “nas últimas” não avisa muito antes de falhar. Um território onde sempre lhe falharam, também não. A minha irmã morreu nesses incêndios, e há limites que, depois de ultrapassados, não dão segunda oportunidade: Quando o sistema falha, pessoas morrem. Depois disso certas frases não fazem mais sentido: “foi uma fatalidade”, “ninguém podia prever”, podia, só que se escolheu não fazer nada.
Quando chegou a depressão Kristin, o padrão repetiu-se. O interior voltou a ser o sítio onde tudo tem de aguentar mais um bocado, onde os serviços mais necessários são os que desaparecem primeiro, onde a resposta demora, não só porque falhou redondamente, mas também porque sempre demorou. Tal como corpos como o meu ainda dão, ainda trabalham, ainda aparecem, até ao dia em que não aparecem mais, e eu sei com absoluta clareza que se eu vivesse no interior agora, já teria morrido, não por dramatismo, mas por cálculo, porque sem água, sem estradas, sem medicação essencial, sem electricidade, não sobreviveria. Seria apenas mais uma morte, mais uma pessoa a menos num país que cobra, mas não dá o retorno de forma igualitária. É triste.
Eu sei, no corpo e na memória, que continuar deixa de ser opção, que não há nada de heroico em aguentar, e o interior de agora é o mesmo de 2017 porque nunca lhe deram descanso, nunca lhe deram cuidado real, pediram-lhe adaptação infinita e, (coisa que não acho normal), mostram surpresa quando isso não chega.
Não escrevo a gritar, já não, não é a gritar que isto vai mudar, as palavras já foram ditas, os números apresentados, as mortes aconteceram, as pessoas do interior já pagaram demais, com injustiça, com tempo, falta de saúde, isolamento. O problema nunca foi falta de ruído, é excesso de indiferença, isto já não é um pedido, é um registo, uma constatação. Sabíamos, continuamos a saber e continua-se, conscientemente, a não fazer nada.
Isso não é falha.
É escolha.
E… 500 €?!! Reduzir anos de negligência a um valor que é um insulto travestido de solução é como um penso rápido para uma cirurgia de coração: isso é desprezo. Pelo amor de Deus.

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