Depois de ter morrido da 1ª vez, acordei com consciência numa sala muito diferente da sala das urgências onde tinha “acabado” de morrer. As aspas são devido à confusão com os dias. Aparentemente, tinha acordado dois dias depois de ter morrido.
Era uma sala grande, um desperdício de espaço só para mim (tinha acabado de constatar que estava sozinha, ligada a uma série de máquinas que faziam sons conhecidos. A parede à minha frente não era uma parede normal mas uma parede de vidro que me fazia ver a sala enorme , que continuava para além do final do meu “quarto”. Dava para ver que à direita, fazia uma curva, mas da parte esquerda, a sala continuava linearmente. Estavam seguramente dezenas de camas, se não uma centena, como que em camarata, cada cama com uma pessoa. Todas idosas.
Entraram 2 médicos, um dos quais foi o que descobriu a minha doença, não sem de bater muitas vezes com a cabeça na parede, por eu recusar esse diagnóstico (e peço desculpas aqui, publicamente, ao Dr. Nuno Bonito, pela pessoa difícil que reconheço ter sido).
Perguntaram-me como me sentia, e eu, como não me sentia mal, disse que me estava a sentir muito bem, mas perguntei logo o que se tinha passado.
Eles fizeram-me umas perguntas, como me chamava, onde vivia, e outras perguntas espaciais, temporais e matemáticas, para verificar se eu sabia onde estava, em que dia estávamos, e para verificarem que eu não estava com outro tipo de lesões, nomeadamente cerebrais. Percebi logo aí que não tinha passado por coisa boa.
Eu só tinha errado no dia, entendível porque tinha ficado a “dormir” mais um dia.
Ele suspirou, puxou de um banco, agarrou-me a mão, e começou a medir o meu pulso. Depois de o aferir, continuou:
A Catarina sofreu uma paragem cardíaca. PAC
O resto que ouvi dele, foi do género:
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá, blá blá blá vaso”cenas”, blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá, fibrilação ventricular, blá blá blá blá blá blá blá restaurar batimentos blá blá blá blá blá, conseguimos reverter e Blá blá blá blá blá blá blá circulação blá blá blá blá blá blá, estabilizou a função cardíaca e tem que ser monitorizada.
O “PAC” (choque) ensurdeceu-me momentaneamente para as palavras duras e só consegui ouvir o que não entendia, com excepção do final.
Nesse ano estive internada 4 meses seguidos. Apanhou-me uma época de exames na universidade e o 2º semestre quase todo… mais um ano perdido.
É nestas alturas que relativizamos. Que pensamos que aquela cadeira a que chumbámos porque fomos “arejar a cabeça ao BA” mas a coisa deu para o torto e fomos directas da Estação da Luz para o exame, não é nada, comparado com “morreu, faltou a alguns exames deste semestre e não vai fazer nenhum exame do próximo semestre, chumbou o ano e o reitor da universidade não reconhece a doença ou a incapacidade, muito menos um internamento de 4 meses como condição especial para fazer os exames de recurso nas épocas especiais porque essas questões “não estão nos estatutos universitários”, e só os trabalhadores estudantes ou os estudantes que pertencem à associação académica podem fazer esses exames. Sim, há cerca de 20-25 anos era assim que as coisas funcionavam.
É uma cena tramada, quando a culpa se transforma numa vivência que sabemos que é provável nunca mais acontecer. É lixado, quando faltamos ao nosso próprio “ultimo cortejo”. É tramado quando finalmente vamos ao nosso “ultimo cortejo”, mas não está lá ninguém que nos acompanhou no percurso, só estão lá como observadores, e verificamos que essa realidade não é nada comparada ao facto de se estar vivo, quando se poderia não estar.
Viver tudo isto, é difícil. e fácil , ao mesmo tempo. posso dizer que é complexo.
Voltando à sala, ou ao quarto dos cuidados intensivos, os médicos saíram, não sem antes me fazerem uma gasometria (tirar sangue da artéria, uma coisa superdolorosa com uma agulha mínima que não mete nem um bocadinho de medo ao susto, o que é bastante enganador).
Passadas horas nesse quarto, sinto um andar conhecido. Reconheço-o e adivinho-o.
Vejo uma pessoa de touca enfiada na cabeça, com uma bata vestida e umas toucas enfiadas nos sapatos (uma visão peculiar de um elfo verde em forma de mãe), a virar a esquina e a aparecer na parede de vidro. Ela atravessa as camas a olhar para o fundo da sala, onde calculo que estará alguém responsável. Alguma coisa não está bem com ela: verifiquei a bengala, o coxear, atribuído ao seu AVC, mas não era isso. Era o medo. A minha mãe estava com medo. A sua posição corporal não era normal. Via a sua ansiedade na inclinação do corpo. A minha mãe, devido ao AVC, tinha que andar direita, de modo a não cair, mas desta vez estava inclinada demasiado para a frente.
Entretanto, um profissional dirigiu-se a ela, encaminhou-a para a porta onde eu me encontrava enquanto provavelmente lhe dizia o que se tinha passado, e entretanto, indicou-lhe onde é que eu estava. Quando ela olha para dentro do meu quarto vejo o seu olhar de desespero. Depois, ela olha para o chão durante um tempo demasiado longo, mas o suficiente para que me ocorra uma ideia luminosa. O profissional de saúde abre a porta para a minha mãe, que, mal me vê diz: “Ó filhota! Então?”, mas com uma aflição e um pânico profundo no olhar e na voz que me assustam.
Eu saco do meu melhor sorriso, e arranco um “eh Mommy, olha tantas televisões!*”
Ela deu um sorriso, ainda com medo, mas mais descansada. Por ver o meu ânimo, que na verdade não era ânimo nenhum, também era medo, por ela.
Fazem-se coisas fantásticas por amor.
*Para quem não percebeu, as televisões eram os ecrãs que me estavam a monitorizar.

Deixe um comentário