Morrer: o melhor que me aconteceu em vida…

Atenção que não é sempre que isto acontece!

Eu já morri 2 vezes. Da 1ª vez foi equivalente à morte do Miki Fehér (jogador de futebol que faleceu durante um jogo, em 2004). Morremos ambos devido a fibrilação ventricular. A minha sorte é que estava no hospital, nas urgências, por ter tido a sensação de que não estava bem. Daí ter sobrevivido.

Da minha 2ªmorte, não me recordo da justificação que me disseram. Estava esgotada demais para me lembrar, foi muito próximo do transplante, e custava-me tudo. Custava-me respirar. Cansava-me imenso a falar. A fazer tudo. Uma vez apanhei uma congestão que quase me levou à morte, apenas porque estava a fazer a digestão e como estava sempre cansada, o meu organismo achou que o acto de fazer a digestão estava ali a ocupar espaço, e por isso era escusado fazê-la. De cada vez que ia à farmácia a pé (a 100m da minha casa), tinha que parar umas 5 vezes para recuperar o fôlego e quase morria 3 vezes. Tinha que ser levada ao colo para poder ir ao mar. Não conseguia fazer cocó porque não tinha força, fazia-o por meio de clisteres. Não conseguia tomar banho sozinha.

Enfim, foi um período negro da minha vida.

Por isso não me recordo de que morri na 2ª vez. Também, como acordei com choques eléctricos e foi uma morte imensamente dolorosa, não quero sequer recordar. E por isso nunca me debrucei nem quis saber muito sobre essa morte. também é provável que tenha esgotado todas as substâncias (que vou falar no final deste post) com a 1ª morte, daí não ter sentido o mesmo na 2ª.

Mas da primeira vez, hummmm, da 1ª vez, fui tocada por Deus.

Também não sei quanto tempo estive morta, mas calculo que foi pouco, dado o pouco tempo que me senti no céu.

Senti a maior paz que poderia ter sentido. Enquanto morria, eu sabia que estava a morrer, mas era uma morte imensamente feliz, acompanhada por uma sensação de que tinha cumprido tudo o que era suposto ter feito, no tempo certo, sem qualquer erro ou engano . Isto enquanto tinha plena consciência de que falhei tantas vezes, e que cometi tantos erros, mas parecia que até esses erros cometidos faziam parte de uma concretização, a de que tudo o que fiz, mesmo os erros e as falhas, eram o caminho certo.

Senti que estava num local infinito de paz e que estava rodeada de felicidade e de amor, mais nada. Mas soube a tudo.

Não vi a vida a desenrolar-se em retrospectiva, não vi as pessoas que mais amava, não vi absolutamente nada, não vi nenhuma luz, somente senti todas as sensações boas que já tinha sentido até aí, mas todas juntas e todas ao mesmo tempo.

Mais que uma vez, me perguntaram se era semelhante a um orgasmo, mas é uma sensação muito mais prazerosa e muito mais ampla que um orgasmo. Um orgasmo vem do corpo. “isto”, vinha de dentro de mim e de fora de mim ao mesmo tempo. Um orgasmo, é uma explosão interna, uns segundos e acabou. Isto era uma sensação que parecia ser um mundo ou uma dimensão diferente. Isto era TUDO.

Essa foi a minha constatação de que Deus existe. Ele está aí, nesse preciso momento, nesse sítio, onde quer que “isso” seja ou exista, eu já estive com ele. E adorei.

Não me recordo de ter sentido essa sensação começar ou acabar, pareceu-me que estava sempre ali, fácil de recorrer. Mas a 2ª morte fez-me descobrir que não é bem assim…

Uma vez também me perguntaram porque é que eu não preferia estar assim – sim, traduzindo à letra, porque é que eu não tentava o suicídio.

Porque sabe-se que essa sensação é terminal. Sabe-se que se está morto. Ou seja, quando se está aí, sabemos que não há volta a dar. Sabemos que vai acabar tudo, e, ainda que se sinta uma paz enorme, ainda que se sinta amor e felicidade tremendos, sabe-se, intrinsecamente, que essa vivência é o culminar de uma vida. Ora, para quem adora viver, como eu, com tudo o que isso acarreta, com as coisas fantásticas e as coisas boas, mesmo apesar das coisas más e das coisas terríveis, morrer não faz sentido.

É como se a morte fosse o culminar de tudo de bom que nos aconteceu, e é aí que se sente tudo. Ora, basta fazer as contas: se eu senti tudo aquilo com vinte e poucos anos, quanto não seria fantástico morrer com 29! Digo 29 porque se não tivesse feito o transplante (aos 29 anos), tinha morrido seguramente nesse ano.

É claro que depois estudei a morte ao milímetro, pesquisei tudo sobre esse acto, caí na esparrela da banha da cobra para ver se sentia essa sensação novamente. Sim, fui a retiros espirituais na Floresta Negra, paguei rios de dinheiro em meditações complexas, oriundas de locais exóticos e longínquos que me prometiam chegar a esse ponto, tentei vários tipos de Reikis (nem eu sabia que existiam vários tipos), “hipnotismos” que nunca se verificaram (apresar de me terem garantido que sim, que tinha lá chegado). Até paguei por leituras de vidas passadas. Acho que só não tentei substâncias que me poderiam prejudicar organicamente (tipo cogumelos, ou outras drogas), mas o dinheiro que gastei com as minhas escolhas, somam uns bons ordenados. Tirei resultados daí? Nada, para além da constatação de que estava mais pobre.

Escrevi livros sobre isso e estudei tudo novamente, desta vez com o acesso a uma internet mais eficiente , e tirei daí constatações fantásticas.

Descobri que o nosso organismo, quando morre, liberta todas as hormonas e substâncias do prazer que temos armazenados dentro de nós. As serotoninas, as dopaminas, as endorfinas, as oxitocinas, enfim: todas as “inas” que temos, são libertadas nessa altura. E sabem aquela sensação de alívio quando fazemos xixi e estamos apertadinhos? Acontece isso também. Soltamos tudo o que nos prende fisicamente. Libertamos tudo o que temos dentro de nós, e são todas essas “inas” e esses alívios físicos, todos juntos, que nos fazem sentir esse caos de felicidade e prazer. Aparentemente, é um género de overdose de boas sensações. Provavelmente potenciadas por ter sido retirada desse estado com uma dose cavalar da substância química, que me devolveu a vida. Também ela uma “ina”.

É claro que acredito em teorias…

Acredito na teoria do reinício, quando se morre sente-se a mesma coisa que quando se nasce – o género da teoria do big-bang em loop, em que o fim culmina com o início, devido à teoria da conservação da energia (apesar dessa teoria não se aplicar ao big-bang), acredito na teoria de que Deus existe e de que está em todo o lado, dentro de nós e fora de nós, e até acredito na teoria do fim de tudo, em que a vida acaba com essas sensações boas e depois é o fim. Acabamos. Finito.

Mas é claro que, apesar de estar dividida entre essas teorias, sou da equipa da continuidade…

No fim, o que me interessou verdadeiramente, é que não morri, mas que senti o melhor que a vida – e que a morte (!) me poderiam ter dado.



Respostas de 4 a “Morrer: o melhor que me aconteceu em vida…”

  1. Mais um texto belissimamente bem escrito! Obrigada pela partilha. Também sou da equipa que acredito na continuidade 😉 um beijinho

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    1. Aobrigada, Alexandra. Beijinho para vocês!

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  2. bellissimo racconto Ana, commovente e pieno di speranza. Hai una forza eccezzionale, mi dispiace che non riusciamo a vederci e che abitiamo cosi lontano. Ti abbraccio e ti sono vicino.

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    1. Davide!! Mi mancano i momenti spensierati, come quelli che passavamo insieme… Stiamo organizzando una visita da voi. Ti farò sapere più avanti. Baci a tutti voi!

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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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