Um aborrecimento que me faz viver

Uma das coisas que me faz viver, infelizmente, é a coisa mais aborrecida do mundo: tomar medicamentos.

Então o que é que eu faço, para que não se torne aborrecido? Faço desenhos na palete, com os comprimidos que vou tirando, invento histórias, tudo em nome da anulação do marasmo de ser obrigada a tomar, diariamente, 25 comprimidos, divididos em 4 alturas diferentes do dia.

Primeiro, já referi aqui que ao almoço não tomo nenhuma medicação – esta é a minha maneira de me sentir normal, igual a todos os outros que também não tomam nenhuma medicação.

No entanto, para compensar, tomo imensos medicamentos quando acordo (em jejum), depois do pequeno almoço, ao jantar e antes de deitar. É um bocadinho difícil conciliar tudo isto. Primeiro porque aliada à toma da medicação, tenho a compra da medicação: Porque volta e meia falta-me alguma coisa.

No Hospital, só me dão medicação para 3 meses (que, não se iludam, passa num instante!).

Já na farmácia, supostamente, podem dar-me medicamentos para 2 meses, mas nunca dão, porque, tirando aqueles que eles não têm em stock (normalmente há sempre um ou 5 que estão esgotados), os farmacêuticos não gostam de ficar com o stock em baixo, portanto, quando eu peço 3 caixas do apixabano (Por exemplo), eles torcem o nariz, e perguntam se eu vou de férias. Eu digo que não (vivo numa cidade que não é muito grande, portanto, existe a possibilidade de ser apanhada, e eu não gosto de mentir). É que se eu for de férias, eles podem estender-me a dose para os tais 3 meses. Então o costume é sair da farmácia com um saco cheíssimo, mas somente com uma caixa de tudo e 2 caixas da ezetimiba (porque o raio da caixa tem pouquíssimos medicamentos), medicação essa que não me chega para o mês inteiro. Ah, e mais “magra” quase uns 200€… Pimba!

E depois do trauma de se me ter “voado” esse dinheiro todo, ainda me sinto na obrigação de fazer uma piada alegórica às compras do supermercado porque a cara de constatação dos/as técnicos/as (da farmácia, que estão no atendimento) de que eu tomo aquilo tudo diariamente, normalmente é de choque.

Mas o problema maior é o das caixas. porque há caixas que nem para meio mês me dão, porque eu tomo mais que três comprimido por dia, em algumas das caixas que compro.

E depois há a crise enorme das caixas… O terror!

Toda a gente sabe que é do lado escrito da caixa (normalmente o lado da validade entre outros “escritos”) que está o enfiado o folheto da medicação. Toda a gente menos alguns embaladores, que volta e meia nos trocam-me as voltas e enfiam o folheto na parte do logotipo da marca.

Não sei se estão a ver a minha perturbação: eu estou cansadíssima, porque tomei banho e vesti-me, e já estou meia atrasada para me pôr à estrada para às 9:00 (mais ou menos) estar no trabalho, porque ainda tenho que me calçar (o que me cansa imenso).

Antes de tomar o pequeno almoço, verifico que praticamente não tenho medicamentos na gaveta, e tenho que abrir uma caixa. Eu abro no sítio certo, mas quando me deparo com o papel das instruções, tenho que tirar o papel para poder tirar a palete para poder tirar o ou os comprimidos, ou tenho que virar a caixa e abri-la do outro lado, para aceder aos medicamentos directamente, sem pegar no folheto. Para ajudar à “festa”, eu rôo as unhas até ao sabugo e devo ser a pessoa mais trapalhona do mundo, logo, para além das dores nos dedos a retirar os medicamentos das paletes, tanto o abrir das caixas como os cortes com que fico nas mãos ao retirar os folhetos (paper cuts, porque os folhetos são finíssimos, logo, autênticos assassinos), são extremamente dolorosos. Então quando acontece o mesmo à 3ª caixa, começo a chamar nomes menos bons aos trabalhadores que colocam as instruções nas caixas sem cumprir o procedimento. Quando chego à 5ª caixa, já chamo nomes às mães dos mesmos trabalhadores e trabalhadoras.

Conclusão: chego atrasada ao trabalho, passo a manhã (pelo menos) com dores nos dedos e mãos, e depois ainda tenho que ouvir o meu marido, porque estão todas as caixas dos medicamentos em cima do balcão da cozinha, com as instruções de fora e alguns medicamentos espalhados, porque com as dores, já não consigo tirar só o folheto informativo, saem todos os medicamentos. E à noite, a mesma “saga”…

É isto a minha vida, amigos, é isto!



Deixe um comentário

About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

.

Newsletter