Quando, da última vez que fui buscar medicação ao hospital, há sensivelmente um mês e meio atrás e a farmacêutica disse-me que eu tinha que ter cuidado ao manusear “aquele medicamento”, questionei-a.
Eu sabia que esse medicamento específico, para além de promover o cancro, também promove a morte celular, para além de poder provocar toda a listagem de doenças conhecidas, e outras imaginadas (típico da medicação “forte”). Mas sempre pensei que os efeitos negativos dessa medicação fossem aquando da sua absorção, já dentro do organismo.
Eu leio tudo. Minuciosamente. E os folhetos informativos eram a minha leitura de choque preferido, primeiro porque depois do transplante se sente tanta coisa diferente do “normal”, que queria entender se esse “anormal” seria em relação à medicação, e depois porque era aterrorizador, e eu tenho uma devoção para com o medo.
Recordava-me de ter lido o folheto há cerca de 19 anos atrás, depois do transplante da minha mãe, e há cerca de 18 anos atrás, depois do meu transplante e não me recordava nada do que vou contar a seguir.
Quando a farmacêutica me deu o folheto informativo, impresso em folhas A4 a “times new roman” tamanho 12 (que quase tinha a espessura de uma BD do Asterix), sublinhou algumas frases enquanto me disse que esse medicamento mata células ao toque, e que com as contaminações cruzadas, pode matar também células de outras pessoas, pelo que eu tinha que lavar as mãos sempre imediatamente depois de tomar esse medicamento específico, e não tocar em nada antes de as lavar.
Imediatamente, formou-se uma imagem na minha cabeça:
– Uma placa a dizer “cemitério de células”, num vulgo cemitério, mas cheio de cruzinhas pequeníssimas enterradas, e eu ajoelhada no chão, mesmo no meio de três ajuntamentos de cruzes (em alusão às minhas células e ás células do meu marido e do meu filho), com a cara virada para o céu e a chorar, com as lágrimas a saltarem-me dos olhos e a contrariar a força da gravidade, imagem essa em formato de banda desenhada.
Eu sei. É tão difícil ser eu, que se eu não fosse eu, nem eu me entendia a mim própria…
O folheto, tinha sido revisto em 2023…

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