Uma vez quase morri a… trabalhar. Já era tinha o novo coração.
Era inverno, e já estava de noite, apesar de serem umas 5 da tarde – Sei-o porque normalmente começava a medir os piezómetros dentro da infraestrutura no início da tarde e ia andando no sentido da saída. (trabalhava na fiscalização de uma obra).
Não me cansava muito porque esse caminho era feito de carro até perto dos pontos de medição. A medição do último piezómetro era o único em que ia a pé, porque ficava fora da infraestrutura e estava cercado de mato. Então, entre ir, medir e regressar, demorava cerca de 1 hora. A saída normal era às 18.
“Dei saída” da obra (na portaria) para medir os parâmetros desse último piezómetro (fazer as medições de salinidade, condutividade e ph, entre outros, para verificar se havia intrusão salina no aquífero).
O estacionamento exterior estava composto, havia alguns lugares vagos, mas também muitos carros, como normalmente. Estacionei o carro no exterior e dirigi-me ao local. Decidi deixar o guarda-chuva no carro, apesar de estar tempo de chuva, porque “era coisa rápida”.
Pouco antes de chegar ao piezómetro começou a chover torrencialmente. Mal cheguei ao piezómetro, comecei-me a sentir mal. Não era só o cansaço de andar a empurrar mato alto com as pernas, mas também o facto de carregar um balde que tinha uma corda enorme, molhada e pesada, com a sonda na ponta, mais a maleta do aparelho de medição. E as botas! Cada passo que dava afundava-me na lama, e o esforço para tirar as botas da lama era imenso – usava umas botas da obra (de aço) que, naquele momento, sentia serem mais pesadas do que eu. Mais as dores da picadas dos tojos nas pernas e braços… acho que foi um misto disso tudo que me fez quase desmaiar.
Embora eu fizesse essas medições muito regularmente, provavelmente estaria a carregar com peso a mais (eu não posso carregar com mais de 5 kg de peso). Com a roupa molhada, o peso era maior.
Havia câmaras que filmavam em contínuo, mas era dentro do espaço delimitado, dentro da obra. Estava sempre um porteiro em permanência, mas, como estava a chover, o segurança estava dentro da portaria.
E eu “não estava lá”. Como já tinha dado saída, e era praticamente o final de um dia de trabalho, seria normal ele pensar que eu não regressaria. Tinha havido uma ou outra situação em que tinha ido de boleia (por não me estar a sentir bem), por isso estar ali o meu carro não queria dizer que eu estava ali.
Ao primeiro “quase desmaio” (não sei qual o correcto termo médico), ao chegar ao local da medição, tive que me deitar. Apliquei o procedimento ao qual já estava bastante habituada: pernas para cima, apoiadas no tubo do piezómetro, até a camoeca me passar.
À beira do piezómetro, era fácil, porque o mato, aí, tinha que ser cortado com regularidade, mas no caminho foi extremamente difícil o processo anti-desmaio. Claro que acabei por não medir nada, inventei os valores depois, interpolando-os com os outros valores que consegui distinguir no papel já seco, mas todo esborratado da água, e fazendo a comparação com outros dias similares, ainda que fosse importante ter esses dados verdadeiros.
Estava a tremer de frio e chovia imenso. Daí a eu ficar com uma hipotermia, não faltaria muito. Ainda tentei deslocar-me de gatas (há uma menor hipótese de desmaiar), mas era extremamente desconfortável e dorido, porque havia imensa lama, tojos e silvas por todo o lado – estava numa zona de pinhal, mas que tinha sido terraplanado e cujo mato tinha sido cortado só na altura do verão. Conclusão: havia mato por todo o lado.
Então, houve a real possibilidade de eu poder ter morrido, se tivesse desmaiado verdadeiramente. O meu marido só iria dar pela minha falta à noite, quando chegasse do treino. Tinha-me esquecido do telemóvel no carro, ou estava sem bateria – Sei que o telemóvel não era uma opção, por qualquer razão que hoje não me recordo.
Tenho tendência para fazer ensaios da minha morte, e este, seria quase perfeito, fora o facto de me estar a sentir verdadeiramente mal. Via-me completamente roxa, enrolada sobre mim mesma, mas hirta, numa cama de fetos. Completamente reconhecível, mas de uma tonalidade branca-azulada, teria a boca e os olhos abertos e enevoados. Ter-me-iam que me partir os ossos todos, para me poderem pôr direita de modo a caber no caixão. A autópsia acusaria um envenenamento provocado por uma substância altamente ilegal, nefasta e indetectável, mas a morte teria sido causada pelo frio, o envenenamento provocaria deterioração da condição física, mas nunca a morte em tão pouco tempo. A picada na nuca…
A imaginação ajuda-me nestes momentos. Estas ideias vinham-me quando eu conseguia raciocinar, logo, quando estava a andar, e nunca terminei a história.
Experimentei tirar o impermeável, mas aquilo não isolava as picadas dos tojos e silvas. então, a opção do casaco foi logo excluída. Experimentei também pôr o balde (que tinha a sonda agarrada à corda) virado ao contrário para me sentar, mas o balde era de tão má qualidade, que não aguentava com o meu peso. E eu era magra na altura!
Das experiências feitas, a vencedora foi esta: Quase desmaiava, punha a corda do piezómetro com o casaco por cima, como tapete para os tojos não me picarem nos joelhos e pernas (picavam à mesma), e ficava aí de joelhos, a aguentar a dor, a quase desmaiar, braços apoiados no balde, cabeça baixa ou nos joelhos, ou mesmo dentro do balde, para me aquecer com a minha respiração e não me picar tanto (ia mudando à medida do quão confortável me parecia ser), até o “quase desmaio” passar. Estava muito mais magra, e conseguia manter-me nessas posições com facilidade – se fosse hoje, não conseguiria. Quando passava a sensação, levantava-me, recolhia a corda e o impermeável e prosseguia caminho.
Isto sucessivamente: Quase desmaiava, despejava o balde (que tinha a corda e o casaco) no caminho, ajoelhava-me, encostava a cabeça aos joelhos ou ao balde, ou dentro do balde, até melhorar, melhorava, levantava-me , recolhia a a corda e o casaco e dava mais uns passos….
Até que cheguei ao estacionamento exterior da infraestrutura.
Quando cheguei, só lá estavam 2 carros: o meu e o do segurança.
Ainda fiquei um bom tempo dentro do carro, com o ar condicionado no quente máximo, para que a minha temperatura fosse aumentando. Tremia tanto que até o carro balouçava.
Não sei precisamente quanto tempo é que durou esse percurso, mas calculando com o tempo da viagem (trabalho-casa), deduzo que tenha durado cerca de 3 horas e meia, no melhor dos cenários. Porque cheguei a casa e o meu marido tinha acabado de chegar do treino, e ele chegava sempre entre as 21:30 e as 22:00. Uma simples medição que deveria durar 1 hora durou 3 vezes mais (considerando uma meia hora do tempo que estive aquecer-me enquanto recuperava, dentro do carro).
Foi ele (o meu marido) que me deu banho. Eu não aguentava mais nada nesse dia. tinha os joelhos, as pernas, as mãos, os braços e o rabo com marcas de sangue, pele arrancada aqui e ali, e imensos arranhões nas mãos e alguns na cara.
Dias depois, apanhei uma pneumonia, ou tê-la-ia apanhado nesse dia, mas só foi diagnosticada então. Teria sido do frio, da molha que apanhei e da perda de sangue (devido à operação de mudança de coração, fiquei com anemia crónica).
A partir daí, comecei a fazer as medições aos finais de semana. O meu marido começou a ir comigo, por medo. Eu dizia na portaria que ele era um estagiário. Passou da primeira vez, passaria sempre. Então, comecei a ensiná-lo, e, sempre que não me estava a sentir bem, era ele que me ia fazer as medições – Como eu era a única trabalhadora independente da fiscalização e já todos os seguranças o conheciam, sabia que ninguém se iria meter com ele. Tinha a vantagem de os seguranças serem sempre muito simpáticos comigo, logo, por inerência, eram-no também com o meu marido, e nunca criaram entraves à sua entrada na infraestrutura.
Aliás, como era final-de-semana, ninguém da minha empresa estava ali a trabalhar, o que ajudou.
Também nunca contei nada desta ocorrência na minha empresa. Não contei, porque se alguém soubesse que eu não conseguia fazer o meu trabalho, poderia perdê-lo. E aquele trabalho, apesar de me ter quase matado (nesta situação em particular), dava-me a vida: às vezes tinha que ir até ao mar, pelas dunas, eram alguns kilómetros. Ia de carro até certo ponto, e depois ia por um caminho de cabras, e as vistas de um sítio quase inexplorado e aquele ar do mar era fantástico. Havia o verão, que era terrível (devido ao calor), já o inverno era tolerável. Mas os Outonos e as Primaveras eram tão maravilhosos que compensavam o resto. Cansava-me imenso (embora estivesse em bem melhores condições físicas que agora – afinal, tinha só 3 anos de transplante), mas era um trabalho remunerador em todos os aspectos.
Serei sempre grata ao JP pela recomendação e à Sandra pela confiança e continuidade, por me terem proporcionado estes momentos brilhantes. A culpa dos momentos negros nessa obra foram da minha exclusiva responsabilidade.
Acho que depois deste episódio acontecer, nunca fiquei muito bem – entretanto, mudei de obra – passei para as obras de saneamento. E, se já estava magra, comecei a emagrecer de tal ordem, que no hospital diziam-me que tinha que deixar esse trabalho, porque tinha apanhado uma bactéria que me estava a matar (associavam essa bactéria ao facto de estar a trabalhar no saneamento, ou seja no encaminhamento de “merdanga” – tinha que ir a estações elevatórias, a colectores, a ETARS, era tudo ligado à merda. E o cheiro, então era insuportável). Mas eu gostava. Não da merda, nem do cheiro, mas do trabalho em si. E não saí.
Acabou por ser a vida que me fez sair. Enquanto eu ia emagrecendo (cheguei aos 40 kg), a empresa onde trabalhava fez o mesmo: começaram a despedir aos poucos todos os engenheiros, e a empresa eventualmente, acabou por entrar em insolvência e fechou.
A verdade é que eu me comecei a sentir mal desde este episódio de frio extremo. Quando ainda estava nas obras de saneamento, mais para o final, comecei a tomar doses cavalares de cortisona, para não definhar, e fiquei “boa” pouco depois de ter saído dessa empresa. Pouco tempo depois, ao voltar para a dosagem normal da cortisona, fiquei impecável, mas imensamente inchada. Demasiado gorda, demasiado amorfa, mas “óptima”…
Estes episódios de desmaio são recorrentes desde este incidente. Nunca tinha tido nada deste género desde depois do transplante. Antes do transplante, aconteciam de maneira diferente.
Ainda não se sabe a sua causa. Sabe-se que tenho quebras de tensão, mas não se sabe o porquê, e eu tenho tendência a arranjar sempre desculpas da tretice aguda: ora comi demais, ora não comi, ora comi depressa demais ora estava demasiado calor, ora demasiado frio, ora ontem não dormi nada…
Conclusão 1: carreiras de merda, fazem emagrecer.
Conclusão 2: apesar de ser atrativo, do meu ponto de vista (porque morrer num hospital é aborrecido e horrível), tenho um pouco de medo de morrer num local isolado com botas de obra. Se pelo menos fosse com uns stilettos, morria um bocado mais “chique”.
Eu não uso stilettos, mas não me importava nada de morrer com uns calçados, significaria que eu não morreria num hospital. Hei-de escrever um post sobre essa minha paranóia.

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