PPR’s, Reforma e outras tretas do género

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Quando se sabe que se vai morrer cedo, falar destas coisas é completamente “nonsense“… Porque é que eu vou fazer um PPR (Plano Poupança Reforma), se eu nunca o irei usufruir? Vai o meu marido usar a poupança, sem mim?! o tanas é que vai! se ele quiser fazer um PPR para ele, tudo bem, mas do meu ordenado nunca vai sair nada para esse objectivo!

As pessoas normalmente ficam chocadas quando digo que não prevejo viver muito, ou quando digo que já devia estar morta, mas quando a média de mortes dos transplantados cardíacos é de 11 a 14 anos e eu já vou nos 18, não posso esperar muito, até porque as comorbilidades que possuo já se coadugnam e prevêem uma morte precoce.

Sim, conheci 2 pessoas Portuguesas que viveram mais de 30 anos após transplante cardíaco e há um homem dos Países Baixos que já passou dos 40 anos após o seu transplante de coração, mas são casos isolados. É o mesmo que dizer que mais ou menos 0,7% dos transplantados cardíacos sobrevive mais de 30 anos depois do transplante, ou seja é preciso viver com muita parcimónia e com imensos cuidados, e, convenhamos, eu não vivo uma vida assim.

Eu sou a “baldas da transplantação”. Os meus médicos passam a vida a ralhar comigo, ou porque me enervo demasiado, e tenho que levar uma vida calma, ou porque não posso comer o género de comidas que como, ou porque abuso aqui e ali, ou porque às vezes não tomo a medicação como devia (maldita medicação para o colesterol), ou porque não durmo como devia… Dizem que são pregos no meu caixão.

Mas a minha percepção de vida plena é isso tudo, é desfrutar. Eu tento viver, literalmente, a vida de uma pessoa normal, com stresses, e com direito a tudo. Sim, sou estúpida a esse ponto. Uma vez, fui fazer arborismo, e no nosso grupo estava uma médica, que me ajudou depois, quando quase desmaiei e tiveram que me tirar a braços de cima de uma árvore (o que foi complicadíssimo), na parte do percurso destinada a crianças. A crianças! Enquanto ela me socorria, alguém lhe disse da minha realidade e ela virou-se para mim e perguntou como é que eu me metia em apuros, sabendo que não devia. Apercebeu-se que tinha batido num ponto critico da minha resistência a aceitar que não posso fazer certas coisas, o paradoxo da cegueira intencional, e retratou-se com “mas quem sou eu para dizer o que não deves fazer…”.

A verdade é que se acho que me vou divertir a fazer slide numa tirolesa para passar de uma árvore para outra, arrisco. Se posso comer um tornedó grossíssimo a escorrer sangue vou recusar? o raio é que recuso! E nunca digo que não à sobremesa depois de uma bela refeição num restaurante.

O que se leva da vida não são anos a mais, vividos de forma desenxabida, mas sim o dia em que fui jogar Paintball e quase desmaiei, “aquele jantar” com os amigos, em que comecei com um carpaccio de carne maravilhoso e terminei com uma baba de camelo e um descafeinado (eu não devia comer carne crua e muito menos ovos crus). Portanto, nada no que mencionei anteriormente se coadugna com o meu estado de saúde. E faço “repeat” amiúde.

A verdade é que essa constatação, de que não vou viver muito, incomoda mais “os outros”, as pessoas normais, do que me afeta a mim própria. Porque nós todos (os transplantados cardíacos) já estivémos à porta da morte, ou era outro coração ASAP ou era a morte certa. Pelo amor de Deus, eu cheguei a morrer pelo caminho!

Quando isto nos acontece, termos tido esta oportunidade durante mais uns anos, vale pela vida (isto era suposto ser sarcasmo).

Recordo da minha mãe (que morreu precisamente na moda de morte dos transplantados cardíacos, 9 anos depois do transplante). Todos os anos ela fazia a retrospectiva da sua vida “a mais”, como ela dizia. Eu arranjei a minha definição: até aos 14 anos, dizia que estava a viver a minha vida a débito. neste momento, já a estou a viver a crédito.

Já quanto à reforma, tenho muita, mas mesmo muuuuita pena de ser obrigada a fazer descontos, mesmo sabendo que existe uma probabilidade enorme de nunca a usufruir (mais de 96,9%, num cenário imensamente optimista), pois isso significaria que eu iria viver mais 13 a 15 ou 21 anos, ou seja, de 31 a 33 ou 39 anos depois do transplante. Estes anos de diferença dependem se me deixariam reformar antes dos 60, só aos 60 ou não, também relacionado a se legislação se mantém igual ou seja, se a minha taxa de incapacidade for alvo de revisão. Que, pelo sim pelo não, já a solicitei. não vá acontecer o impensável…

Conheço da realidade do nosso pais, e sei que estou a contribuir para a reforma dos actuais cidadãos Portugueses que têm todo o direito de usufruir da sua reforma, até porque já fizeram os seus descontos. O que me irrita não é o facto de eu não chegar à idade de poder desfrutar dela, mas sim de comparticipar a dos outros sem ter nenhum usufruto disso.

É por isso que sou anti-tretas.

NOTA: este artigo apresenta somente a minha visão pessoal, não pretendo indicar para não subscreverem estas ajudas, pois são bastante valiosas numa vida que se preveja longa.



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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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