Gelo e Fogo

post grande

E passou mais um Verão, mais umas férias, mais incêndios, mais mortes…

Este assunto mexe muito comigo porque a minha irmã faleceu no incêndio de Pedrógão Grande, em 2017, um ano pautado com mais de 100 mortes provocadas por incêndios. E isso leva-me a este post.

Eu Passei da fase em que não sabia nada sobre a morte para o momento em que a minha bisavó morreu, tinha eu 8 anos. eu não me lembro de absolutamente nada dessa morte, mas recordo-me que, quando era muito mais pequena, gostava de mexer nos lóbulos das suas orelhas. Ela tinha uns brincos de ouro com uns rebicoques que abanavam quando as orelhas mexiam. Até que ela me disse que me dava os brincos, quando morresse. e eu, inocente, perguntei-lhe “então e quando é que tu morres? e continuei com essa pergunta por vários dias até a minha Mãe decidir ter uma conversa comigo.

Do que me lembro perfeitamente (mesmo, todos os passos desde que a minha mãe me acordou até olhar para dentro do caixão), foi da morte da minha avó, mãe da minha mãe (filha da bisavó que mencionei), 6 meses depois. Na minha cabeça, os avós eram todos velhíssimos (a minha avó tinha 63 anos – estou a frisar isso porque claro que era demasiado nova para morrer), mas ainda assim foi uma morte que me custou. Eu tinha (ainda) 8 anos, e recordo-me perfeitamente da minha mãe, vestida de preto (nunca tinha visto a minha mãe assim vestida, ela era só cores), preocupada com todos: com as filhas, com o meu avô, com a sua irmã. fez-me ver a minha avó no caixão e lembro-me que a minha avó estava mais bonita do que quando a tinha ido ver “há dias” ao Hospital dos Covões.

Anos depois, já estava eu na universidade, começaram a morrer-me os meus restantes avós e a minha ultima bisavó. O ultimo dos avós a falecer foi a minha outra avó, já estava eu a trabalhar, já tinha sido transplantada e já tinha casado.

O curioso (e estúpido) é que havia sempre um motivo:

Da primeira, foi “já estava na idade de Deus a levar, teve uma vida santa” , da segunda foi “Deus levou-a porque estava a sofrer muito, foi o melhor que lhe aconteceu”, na morte de um tio, que faleceu muito jovem foi “era uma pessoa demasiado boa, Deus estava a precisar dele”, e por aí adiante. Tudo relativamente a Deus.

A verdade é que mortes são tragédias, e as tragédias nunca fazem sentido. É essa a base de uma tragédia: é não ter qualquer fundamento. Ponto final. Ou se morre de velhice, de doença, ou se é morto. Mas nada, absolutamente nada pode justificar uma morte.

Os meus Pais morreram muito cedo, ambos com 63 anos, primeiro o meu Pai, e, 4 meses depois, a minha Mãe. Provavelmente pela proximidade de ambas as mortes, ainda tenho muito presente o trauma de ficar órfã. O não sentir rigorosamente nada. Uma dor tão grande que camuflava todos os outros sentimentos. Estive mais de um ano taranta a brincar com o meu sobrinho (que aquilo nem brincar era), a sugar da sua energia e do seu amor, para me manter sã. Estive mais de um ano sem fazer amor com o meu marido, porque não estava disponível emocionalmente para o fazer (e agora vamos todos fazer uma vénia ao meu marido, por ser o melhor marido do mundo).

Custava-me demais e não conseguia conceber a minha existência sem os meus pais. Então sem a minha mãe, o meu guia para viver, era impossível.

A maneira que encontrei para superar esse trauma, foi por acaso. Começou a dar um filme de terror (que nem era dos bons) na tv e a letargia era tanta que não mudei de canal. E assustei-me. E vi-me com medo. E usei isso a meu favor: consumia um filme de terror por dia, para conseguir saltar do sofá, conseguir sentir o que quer que fosse. Os filmes de terror foram o início da minha liberdade contra a dor.

Agora que me apercebo do sentimento físico associado às mortes deles, questiono-me se estamos realmente todos ligados. Porque alguma coisa se perdeu em mim, quando eles morreram. E não sei o que era, mas fugiu, e eu senti-o fisicamente.

Com a morte da minha irmã, que foi tempestuosa, o que surgiu primeiro foi a preocupação. afinal tinha-me morrido a minha irmã, mas era o seu filho (que tinha 7 anos de idade, mas que na verdade eram 12) que devia estar a sofrer mais. pelo que assumi o papel de “estar sempre lá para o meu sobrinho”. e foi o melhor que fiz, por ele.

Por mim? Nem tanto, porque logo a seguir veio a raiva. E a raiva demorou tempo demais. A raiva impulsionou-me de tal maneira que comecei a atirar para todo o lado (ainda hoje faço isso). Toda a energia que tive a partir daí veio da raiva. raiva do governo, por não ter feito nada, raiva dos bancos, que consumiram todo o dinheiro ao governo, que podia ter servido para uma maior protecção dos que morreram a tentar chegar a lugar seguro, raiva da minha seguradora, que se recusou a tratar uma infiltração que tive no WC. Tudo o que fazia era movido pelo ódio, tanto à policia, que me intimidou quando fui chamada a assinar um documento (que não queria assinar), passando pelo Juiz, que não nos queria deixar ficar com o meu sobrinho, como à pessoa que estava parada à minha frente, no trânsito. Desenvolvi uma extrema habilidade de calcular o menor percurso para chegar de carro ao lugar pretendido (já o fazia, mas a nível de recursos próprios – calcular quanto tempo posso fazer determinado esforço até desmaiar, por exemplo).

Consequentemente, veio o tempo das imensas multas, fiquei sem carta várias vezes, e isso ainda não passou: de cada vez que saio de casa, preciso ir ver onde há fogos, na altura dos fogos, ou as restantes condições meteorológicas. Nas outras circunstâncias, preciso chegar de A a B o mais depressa possível, e, se calha a ficar parada no trânsito, começo a ficar em pânico. A minha psicóloga disse-me que isso era um distúrbio causado por Stress Pós Traumático. ou seja: Associada à morte traumática da minha irmã, e ainda a sofrer pela morte dos meus pais, não vivi os passos do luto como devia ter vivido, o que me transtornou para a vida (isto porque só vou à minha psicóloga em casos de SOS, e não como ela quereria)…

Este verão, uma amiga perguntou-me como era sentir a morte dos pais, o que se sentia, e hoje, conheci uma miúda que me contou que não conseguia ver-se sem os seus pais.

Vou tentar ser fiel ao sentimento físico, mas não vou isentar a descrição do choque emocional que se sente, e vou generalizar, não o vou dizer no singular e só pontualmente refiro o que senti em particular, porque é o que eu calculo que todos sentem, nestas circunstâncias:

Quando se tem conhecimento da/s morte/s, sente-se um gelo, e é um gelo mesmo, não é só frio, é um gelo paralisante, que começa subitamente no estômago (e começa aí a formar-se um ácido), um segundo antes de se saber. Esse gelo vai aumentando, vai-se espalhando uniformemente à sua volta. Quando chega à coluna, esta retesa-se, mas o gelo continua a subi-la e continua a espalhar-se pelos restantes órgãos. Entretanto, já chegou aos intestinos e à bexiga, mas ainda continua a subir para os pulmões e chega à parte superior da coluna. No pescoço, na zona da garganta, forma-se uma pedra que não nos deixa respirar. Não é choro, é dor, Muitos chorarão nessa altura, eu nunca o consegui fazer. E o gelo, depois de atingir todas as entranhas, recolhe-se, desta vez com muito mais força e mais velocidade, com uma agitação tempestuosa, parece que está a sofrer um processo de vácuo. Acredito que, pelo meio, rompe muita coisa. não sei se células, se órgãos inteiros. E esse gelo, que agora está a queimar imenso, canaliza-se todo para o centro, para o peito, para o coração. E escapa-se todo por aí. nessa fase, queima tudo por onde passa, e depois sente-se uma dor terrível no coração. fica aí um buraco negro, uma falha, perde-se aí alguma coisa que tem um peso descomunal na nossa vida. Pelo meio disso tudo, ouve-se um zunido nos ouvidos e vêem-se pequenas faíscas a passarem na nossa faixa de visão. E só passaram poucos segundos desde o início, mas tanta coisa se esmagou no processo. É aí que o ácido que entretanto se formou no estômago vêm para a garganta e apercebemo-nos que temos que nos sentar.

Depois, na última vez que se vê o morto, sente-se a perca total da esperança, a constatação que só nós é que sentimos aquela dor, mais ninguém (na morte dos meus pais, vi a minha irmã, que supostamente deveria sofrer tanto como eu, a reagir de maneira completamente diferente de mim). Este género de dor isola-nos em nós. Enquanto o caixão desce, a pedra na garganta (sim, a mesma que se formou lá em cima), cresce e aumenta até à zona do peito e a dor no coração que se sentiu no fim do início, é exacerbada. É nesta altura que nos sentimos perdidos. Muitos também chorarão nesta altura. Eu, não consegui.

Acontece o início e o fim de um big-bang de gelo e fogo dentro do nosso corpo, um big-bang de dor, que culmina num buraco negro que suga toda a alegria, tudo o que há de bom em nós. No fim, tudo dói.

Essa dor, em mim, ainda existe. Dura há tempo demais.



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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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