Amizades.

Post grande

Felizmente, considero que tenho a minha quota parte de amizades. Quero acreditar que tenho as amizades que mereço ter, e isso faz-me sentir contente.

Uma vez pensei que tinha acabado uma amizade. e não era uma amizade qualquer, era “a melhor”, “a de sempre”. Mas a verdade é que essas amizades nunca acabam. Esfriam, afastam-se, ficam no mesmo sítio quando nós temos que sair dali, porque os nossos interesses vão mudando, e vão-se afastando dos interesses desse amigo.

E isso não é mau, porque é a subir por esses patamares que nós evoluímos.

O patamar de cima não está ali com tudo o que tinha o patamar de baixo, está vazio e temos que o construir. Nessa construção, temos que ver se o que trazemos do patamar de baixo serve para que a construção deste se faça.

Eu levei essa amizade comigo, mas reparei que atrapalhava mais que dava prazer, porque estava a retirar muito tempo ao essencial. Nos dias em que ia lá atrás buscar frases ou atitudes que justificassem deixar essa amizade para trás, a minha auto-estima ficava lá em baixo, e questionava-me imenso…

Hoje, reconheço que deixar a amizade lá foi o melhor para mim, porque continuo com um amigo, não tão intimo como antes, não tão presente como era, mas as memórias ficaram todas, a gratidão por ter essa pessoa como amigo e pelos momentos que vivemos é tanta que não se consegue apagar essa amizade. Nunca.

Foi extremamente difícil para mim fazer a viagem de volta para deixar essa amizade onde ela queria estar, e posso afirmar que só o consegui fazer com psicoterapia, que mexia comigo de maneiras inimaginavelmente tristes (eu na altura estava a passar por um processo tremendo, a ser obrigada a mudar e a deixar para trás muitas coisas ao mesmo tempo), e nessas idas e vindas, muitas vezes dava por mim a pensar se teria amigos, na verdade, ou se a amizade era um disfarce para que não nos sentíssemos assim tão sozinhos na vida…

Enquanto andava para a frente e para trás, detectei que um grande favorecedor destas dúvidas costumava ser, normalmente, o Mr. facebook. Porque o acto tão fácil de deslizar para baixo fazia-me deparar com uma festa, ou um qualquer encontro, em que “Toda a gente” esteve lá, e eu nem fui convidada.

E depois “a coisa” não parava ali, continuava a ver e verificava as vidas perfeitas de cada um dos que conhecia (e que tinham ido à festa): Férias aqui e ali (normalmente em locais extraordinários), confirmava o que tinha visto há umas semanas no linkedIn, que um deles tinha um novo trabalho, por acaso fantástico, e começava-me a sentir uma verdadeira merda, com uma vida completamente insignificante.

A verdade é que eu também boicoto muitas situações… ou estou cansada, ou tenho dores, e uso esses factos como desculpa para não ir a encontros com amigos, quando, na verdade, ficarei cansada à mesma e estarei com dores à mesma, não é que eu ficando em casa me canse menos ou tenha menos dores… Ainda por cima eu, que já fui a pessoa que aparecia em todo o lado ao mesmo tempo (como o filme), apesar de tudo o que estava a sentir e a passar (que, normalmente, não eram coisas boas).

Essa reflexão tirei-a numa consulta com a minha psicoterapeuta: Ela normalmente manda-me pensar sobre os meus problemas (ou os problemas que eu arranjo). Só que eu não tenho muito tempo para isso, porque a cada dia que passa fico mais cansada, novos problemas aparecem e a vida mete-se pelo meio e etc e tal. Eu quero e preciso de respostas prontas, que ela me ensine mecanismos para contrariar os meus problemas ou pensamentos, e uma vez ela fez-me a vontade, e perguntou-me se eu achava que a vida deles era assim tão perfeita, e se o ponto de partida da vida deles era o mesmo que o meu, e como é que eu lido com isso.

O meu ponto de partida é muito diferente do ponto de partida dos meus amigos. Eu sou deficiente, com tudo o que acarreta a minha deficiência, logo, as condições são completamente diferentes, eu nunca me poderia comparar com uma pessoa saudável, no entanto, caio sempre nessa esparrela…

E é obvio que ninguém tem uma vida perfeita, por exemplo, eu volta e meia queixo-me, mas a verdade é que estou a passar por uma fase extraordinária, pois sinto-me imensamente feliz. O que não deixa de ser um período, que sei que mais tarde ou mais cedo vai acabar, tenho noção disso (até já estou com medo da próxima crise que vai aparecer, porque a imagino enorme). É claro que adoraria ter um trabalho fantástico, em que ajudaria os outros, nunca descurando a minha área base, vibrava se conseguisse ir de férias para aqueles locais onde há tartarugas, ou crocodilos, ou cangurus, ou elefantes e leões e zebras (sim, a vida animal faz-me vibrar), mas como não tenho dinheiro para ir a esses locais, vou-me contentando com o que tenho (que já é fantástico), mas que tanto me relaxa. Ou não relaxa nada, mas acaba por ser um local diferente com rotinas diversas.

A minha psicoterapeuta disse-me uma coisa que me fez ter esperança (essa coisa que me move). Disse-me: “e se vires essa festa não como não foste convidada, mas como uma porta aberta para o futuro? quando boicotas essas situações, o normal é que as pessoas deixem de pensar em ti, mas no entanto acredito que tenham a porta aberta pra quando quiseres ir”.

Acho que a solução passa por assumir que as pessoas ficarão felizes por me ver, independentemente se fui convidada ou não. E o pior é que eu era assim, antes: estava em todas, inclusive mesmo nas festas em que não era convidada! ou seja, não tenho que mudar muita coisa, só tenho que voltar lá atrás buscar esse “à vontade”…

Adoro as amizades novas que entretanto já fiz neste patamar, e continuo a desfrutar das que trouxe comigo. Gosto imenso de receber a mensagem “daquela amiga” a dizer que está cá em Portugal, e acontece que os jantares com ela são também com outros amigos nossos de Liceu, ou quando vou ao Festival do Caracol com uma amiga e ela não aparece porque tem o filho doente (porque não sou só eu que não apareço, os outros também têm direito!), mas me divirto “no matter what”, porque, estão a ver, há caracóis (relaciono-me imenso, devido à sua lentidão), e por acaso são um petisco extraordinário, ou quando luto (porque luto mesmo) para que haja o almoço anual com as “do fígado e do coração”, as amigas do ano em que fui caloira (deveria ser de três em três meses, mas uma delas nunca deixa acontecer…), mas que sempre que acontecem me deixam imensamente feliz, e odeio quando digo e ouço dizer “é pá temos que combinar um almoço”, mas depois ninguém acaba por combinar coisíssima nenhuma, ou quando não vou onde sou convidada porque o meu nível de energia não dá mais (ou penso que não dá mais, porque, depois de não ir e de me chegar a insônia, penso que dava sempre, quanto menos um gelado, disfarçado de café.

Também odeio não convidar pessoas a minha casa amiúde, “só” porque tenho que arrumar a casa (antes e depois, porque a minha casa está sempre a desgraça total e eu tenho alguma vergonha na cara), e limpar a casa e a cozinha depois.

No entanto, o que eu Preciso mesmo é não boicotar as saídas, ou achar que sou um fardo (sendo esta uma situação difícil, porque todos os dias sinto que preciso da ajuda de alguém, mesmo que me consiga safar sozinha a maior parte das vezes), ou deixar de pensar que não sou bem-vinda (quando na verdade irá haver sempre alguém que irá ficar contente por me ver).

Estes são alguns dos estigmas que me perseguem (e acredito que sejam estigmas de muitos deficientes, se não de todos), e que tenho que ultrapassar. Que temos que ultrapassar.



Respostas de 4 a “Amizades.”

  1. Avatar de Ângela Silvestre
    Ângela Silvestre

    Só para me expores ao ridículo de vir para aqui justificar que estava com uma virose, daquelas que nos fazem por vezes pedir o transplante de pulmão, coração, estomago…..até o miúdo fazer 6 anos vou precisar do teu dístico azul emprestado de vez em quando!

    ADORO-TE SEMPRE

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    1. Amiga, ninguém ia saber que eras tu!! Nunca revelo nomes, senão ainda tinha que levar com a proteção de dados em cima! E tenho que te dizer uma coisa, eu sou deficiente mas sem dístico azul. Aparentemente só as pessoas invisuais, as que andam de cadeiras de rodas e as que têm mais de 90% de incapacidade podem ter dístico azul… … … … … estas reticências todas dizem o que penso disso…

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  2. Há uns tempos ouvi, “gosta de ti como és e preocupa-te menos com o que poderias ser 🤗”

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  3. Nada mais que a verdade, Carla. obrigada pelo teu “input”

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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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