A história do meu nascimento

A história do meu nascimento, que refiro no post50 anos de Liberdade“, é relativa ao acesso à ficha médica das futuras mães, nomeadamente as que têm problemas graves de saúde.

Eu decidi nascer num domingo, ainda por cima de madrugada (pouco depois da 1:00). O meu pai levou a minha mãe para Coimbra no sábado (desconheço a que hora), e quando lá chegou, indicou que era necessário chamar o cardiologista de serviço (era o que tinham concordado em consultas prévias).

Recordo quem era a minha mãe: era a “miúda” a quem tinham diagnosticado uma miocardiopatia restritiva com 20 anos de idade, doença cardíaca essa que poderia significar a morte, tanto dela como minha (lembro que, na altura, em Portugal, a taxa de mortalidade à nascença era assustadora, tanto dos bebés como das mães que sofriam de condições médicas perigosas).

Mas eles só chamavam o cardiologista se estivesse escrito na ficha médica da grávida e a ficha médica da minha mãe estava juntamente com as fichas médicas de todas as grávidas, no seu local habitual: no arquivo. E o arquivo estava fechado à chave… E ninguém sabia onde é que estava a chave, porque era final de semana do mês de Agosto (o mês das férias de toda a gente) e provavelmente, seriam “más horas” para se estar a chatear alguém “só” porque uma futura mãe precisava de acompanhamento médico a nível cardíaco durante o parto, em que ter a sua ficha médica seria essencial para salvaguardar a sua saúde e vida.

Agora vou recordar o tempo em que estávamos: a Constituição tinha saído há relativamente pouco tempo, que garantia o acesso de todos os cidadãos aos cuidados da medicina. Ainda não existia o SNS (Sistema Nacional de Saúde – esse seria fundado por despacho cerca de um ano depois e sairia na legislação Portuguesa depois de mais um ano), mas o meu pai exigiu que houvesse acesso dos médicos à ficha médica da minha mãe, e exigiu que um cardiologista fosse assistir à minha mãe (e a mim) no meu nascimento, de modo a salvaguardar a nossa saúde.

Quem não conheceu o meu pai não consegue imaginar o chato que ele era quando queria uma coisa: ele quando queria e achava justo o que pedia, só parava quando a tinha.

Então ele pediu, como não teve o que pediu, exigiu, mesmo não tendo, começou a armar barraca até terem que ir acordar uma série de administrativos/as até chegarem ao/à que tinha a chave do arquivo, porque o responsável do arquivo estava de férias.

E a minha mãe teve um parto em condições, com direito à sua ficha médica e à presença de um cardiologista!

Anos mais tarde, quando o meu pai já estava a trabalhar em Coimbra (teria eu cerca de 9 ou 10 anos), estava ele no internacional (um café muito “sui generis” virado para dentro) a beber um café quando é interpelado por um homem, que lhe perguntou se foi ele que exigiu um cardiologista e acesso ao arquivo num parto na Daniel de Matos (a maternidade). Quando ele disse que sim, que tinha sido ele, o médico sentou-se ao seu lado e contou-lhe a história toda: que a acção do meu pai teve tal repercussão naquela maternidade que no final desse ano já a chave do arquivo estava na sala dos médicos, e que esse facto tinha trazido muito sucesso nos partos mais críticos, para as mães que corriam mais riscos no parto. E que esse sistema, depois de implementado, tinha sido comunicado às restantes maternidades do país, que também o implementaram, pois afinal de contas, são os médicos que têm que ter acesso às fichas médicas dos doentes e mais ninguém.

Ainda me “lembro” dessa história, porque os relatos do meu pai eram tão extraordinários, que eu vi tudo isto a acontecer na minha cabeça: o meu pai a fazer a “sua cena” e pôr toda a maternidade em alvoroço, e depois, sentado no balcão do internacional a falar com esse médico, que aparentemente, teria sido “um dos”, ou “o” que me trouxe ao mundo (porque depois lhe perguntou “e como está a menina?”).

E pensar que se isso tivesse acontecido uns anos antes, o meu pai seria preso por exigir uma coisa que hoje é tão básica e fundamental, e que, dada a forte possibilidade da minha mãe ter morrido no parto, eu poderia não ter nascido sequer ou ter vivido uma vida sem a ter tido a mãe estupenda que tive, faz dar mais valor à liberdade que nos assiste…

Ter uns Pais fantásticos, faz toda a diferença num mundo que não está preparado para pessoas como nós.



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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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