Odeio-te, meu amor…

Tomo imensos medicamentos: uma página A4 inteira cheia deles…

Dos mais de 20 comprimidos que tomo (já não incluo os pós do Magnésio, a ampola do Ferro, o comprimido efervescente do Calcio e as gotas de vitamina D), 3 desses estão sublinhados, o que quer dizer que não me posso esquecer de os tomar de maneira nenhuma, pois enquanto os outros se me esqueço sofro na pele quase imediatamente (ou não, e sinto-me muito melhor a curto prazo), estes não… A sua falta pode significar uma rejeição do coração, o que significa morte certa.

Mas tenho, com um desses 3, uma relação de amor e ódio terrível.

Qual deles? a famosa Cortisona.

Amo-a porque os níveis de energia que me dá são estupendos, e é por isso que para mim as manhãs são o meu melhor período do dia (mas só depois da cortisona). À medida que a concentração desse medicamento vai diminuindo, vou esmorecendo, e também não tenho dúvida alguma que a cortisona é um coadjuvante do antidepressivo.

Amo-a porque me faz ficar com umas mamocas jeitosas – eu não tinha mamas, tinha uns sulcos ligeiros (quando estive em coma e estava super magra, o meu melhor amigo foi-me ver aos cuidados intensivos e viu-as. Quando saí do coma, fez questão de me dizer que tinha visto as minhas “borbulhas”, e o pior é que mais pareciam isso…). A cortisona fez-me passar de uma copa negativa (porque nem os soutiens mais pequenos de copa A me serviam, tinha que usar os soutiens para menina, ou seja, para quem ainda não tinha as mamas completamente desenvolvidas), para uma famosa copa B a fugir para o C. (uma amiga disse-me para eu ter cuidado na divulgação desta informação, ou seja: quem leu este parágrafo tem obrigatoriamente que ler todo o post)

Odeio-a por tudo o resto, e acreditem, tudo o resto são demasiadas coisas:

É o facto de a cortisona reduzir drasticamente a densidade dos ossos, o que os torna reticulados, que me provoca osteoporose;

Também tem um efeito nefasto na metabolização das gorduras e dos açucares, podendo provocar mais facilmente diabetes por aumentar os açucares no sangue e aumentar os níveis de colesterol, provocando aterosclerose (já tive que pôr um stent à conta disso, pois tinha uma artéria constrangida 95%). Essa metabolização das gorduras também engorda, o que me faz estar 15 kg mais gorda.

Tem um efeito hormonal que provoca o “efeito de cushing”, que é a alteração da quantidade de gordura corporal. provocando uma face mais gorda com uma cara redonda e um efeito “Humpty Dumpty”, que é um perímetro abdominal alargado, gordura na parte superior das costas e alargamento do pescoço, no entanto, as pernas e braços tornam-se mais finos.. Provoca também pele fina (que por sua vez faz estrias horríveis), que provoca a facilidade de ficar com nódoas negras (tenho algumas permanentes), e a possibilidade de ganhar feridas facilmente.

Quem toma cortisona cansa-se demasiado facilmente, e, a longo prazo, tem tensão alta, cálculos renais e o efeito é o inverso, ao invés de ser o anti-inflamatório mais poderoso do mundo, diminui a resistência às infecções…

Ainda provoca alucinações (tive imensas, no início do transplante), é um facilitador de depressões, promove a queda de cabelo, e quando nos pisam os calos, faz-nos ter laivos de raiva que dificilmente são acalmados (efeito dos esteróides).

A nível de alimentação e sistema digestivo, aumenta o apetite, provoca má digestão, úlceras no estômago e inflamações no esófago e no pâncreas.

Acima disso tudo, à medida que o efeito positivo da energia vai passando, o cansaço apodera-se do corpo, o que faz diminuir a resistência, provoca insónias, agitação e nervosismo.

O pior é que as pessoas que tomam cortinona, mesmo que parem, nunca recuperam totalmente dos sintomas que esse medicamento provoca.

Depois, metade dos medicamento que tomo são para atenuar os efeitos secundários da cortisona.

Devido aos esteróides que a Cortisona tem, nunca poderia ser atleta de alta competição, por causa do dopping. é por isso que não pratico desportos de alta competição. Só por isso…

Surpreendentemente, sempre que me vejo ao espelho, vejo a miúda gira de há 18 anos atrás. Já quando vejo as fotos e não me reconheço, só te chamo nomes, minha querida Cortisona…



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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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