Discursos de Ódio

Unsplash/Jon Tyson

Deveria estar a falar dos direitos das mulheres, dado o dia que foi ontem, mas tenho aqui uma coisa entalada que tenho mesmo que tirar do meu sistema.

Acabei de apagar os comentários e e-mails ao “ O post que não queria ter escrito”. Confesso que, para além da tremenda surpresa pelo post ter sido visto muitas vezes – foi o meu artigo com mais visualizações (em que fiquei feliz por ver que o meu blog está a chegar a tanta gente), a verdade é que não estava à espera dos muitos comentários /e-mails negativos reflectissem tanto o ódio que por aí anda.

Li todos, mas, dado o teor das mensagens, decidi não aprovar nenhuma (ainda bem que escolhi essa possibilidade, quando comecei o blogue). O objectivo deste blog não é promover a discriminação contra a deficiência, mas sim o contrário: promover o respeito e a tolerância entre seres humanos diferentes.

Adoraria dizer que todos os comentários negativos foram construtivos, mas estaria a mentir… houve um post educativo e elucidativo (calculo que por eu ter pedido para me dizerem que eu estava errada), mas a maior parte foi com teores acusatórios, nada democráticos, e, de certa forma, preocupantes, no sentido em que retractam verdadeiramente como são tratados os deficientes. Por isso decidi quase de imediato que não pretendia traduzir nem esse nem este post que escrevo agora (e irei anular todos os comentários e e-mails a este post sem os ler), porque confesso que não tenho mais energia para lidar com este género de negatividade gratuita. E agora entendo porque é que a profissão de assistente de redes sociais é tão solicitada (era algo que eu não entendia, como é que se poderia alocar os comentários e mensagens do “nosso blog”, uma coisa “tão nossa” a outrem…). Agora sei.

Li os e-mails / comentários deprimidíssima, a pensar “que mundo é este, cujo ódio é tanto que pode ser destilado assim desta maneira tão cruel e baixa?”. Mas acredito que cada um deles me fez crescer mais um pouco, porque, à medida que os ia lendo, afectavam-me cada vez menos.

Eu odeio engolir sapos, parece que fico com algo entalado na garganta, um nó que não sai que não me deixa dormir, e foi aí que decidi que o melhor seria escrever sobre isso: mostrar qual a minha posição sem mostrar a mensagem em si, para também levantar o véu da ignorância, mas sem nomear as pessoas: Ao ler este post, as pessoas que me escreveram saberão que determinadas coisas que escrevo são direccionadas para lhes responder, mas que também podem elucidar tantas outras pessoas.

Aos que me chamaram comunista, escrevi este post à parte, de modo a não tornar este post demasiado extenso:Rebeldia Demasiado Consciente – associado a “Discursos de Ódio“.

À pessoa que me disse que eu me devia matar, vou contar uma história sobre uma altura em que eu estava quase a ter uma paragem cardíaca, em que me colocaram, num quarto dentro das urgências, juntamente com uma estudante universitária que se tinha acabado de tentar suicidar, e que estava na iminência de ter uma paragem cardíaca: duas situações iguais, com contextos bastante diferentes. Mas vou ter que colocar essa história num outro post, porque não me posso dar o luxo de gastar tanto do vosso precioso tempo com esta leitura. o post está em: “https://acrapinside.com/2024/06/04/historia-de-duas-desconhecidas-que-nunca-mais-se-viram/

Quanto à pessoa que se mostrou favorável à morte dos deficientes bebés, isso é assassinato. Ponto final.

Quanto aos que se manifestaram contra a procriação entre deficientes, faço-vos algumas perguntas:

1 – E se, num mundo ideal, a única deficiência fosse ver mal? E simplesmente o acto de usar óculos era indicador de que se era deficiente? Teria ou não tido filhos, que poderiam ou não usar óculos?

2 -E se… A deficiência fosse algo que fosse descoberto só depois de se ter filhos, ou mesmo nunca pudesse ser descoberto, à semelhança do que acontecia antigamente? O que faria?

Dou 2 exemplos:

– Eu sempre fui deficiente, desde que nasci. Mas não sabia que o era, porque nunca tinha experimentado ser uma pessoa normal. Só descobri a minha deficiência aos 25 anos, idade mais que suficiente para ter filhos.

– A minha bisavó teve 7 filhos, no entanto, só 2 sobreviveram. As crianças, segundo relatos da minha avó, que era a filha mais velha, morriam bastante inchadas ou a respirar com imensa dificuldade (características de doenças cardíacas), mas nem os médicos na altura sabiam ou conseguiam descobrir a causa dessas mortes.

Houve algumas pessoas preocupadas com o imenso dinheiro que eu estaria a receber do estado, dos subsídios, de contribuições ou outras subvenções, o que é de louvar essa extrema preocupação com o erário público. Porque essas mesmas pessoas, que julgam que este género de subsídios é um peso para o estado, esquecem-se da sociedade capitalista em que vivemos (que dá mais valor à vertente economicista em vez de dar valor à vertente social, às pessoas), e, principalmente, não reparam no nível de corrupção que temos.

O estado deve olhar para as pessoas, mas infelizmente, estes últimos governos têm estado somente voltados para o capital, para os bancos, para investir em empresas publicas, que ficam privadas e que depois ficam publicas novamente e/ou vice-versa, e para outras grandes empresas… e quem é que sofre? O povo!

Sim, eu recebo os medicamentos imunossupressores do hospital, que, de tão caros que são, não os consigo pagar (o mais caro já custou cerca de 600€/caixa, embora agora, com a saída do genérico, esteja a 80€ – eu tomo 2 caixas por mês desse medicamento, mas no início do transplante, tomava bem mais).

Sou completamente a favor destas ajudas, porque a sua função social e de integração nunca vai aproximar os deficientes das pessoas normais, mas vai dar um pouco mais de alívio monetário ou “facilidades”, como o acesso a, por exemplo, medicação, aparelhos e equipamentos fundamentais, e/ou consultas e tratamentos não comparticipadas, ajudando bastante a vida da pessoa com incapacidade. Muitas vezes, acaba por ser essa a única ajuda face uma situação de pobreza, porque infelizmente, nem todos os deficientes têm um trabalho justo (ou sequer mesmo qualquer trabalho), ou habitação conveniente (ou vivem mesmo com um mínimo de dignidade), mesmo a receber esses subsídios.

Portanto, eu sou a favor de tudo o que dignifique o ser humano, logo, tudo o que dignifique uma pessoa deficiente.

Segundo as estatísticas Portuguesas, do cerca de 1 milhão de deficientes que existem em Portugal, cerca de 850 000 pessoas recebem essas subvenções, mas ninguém pensa nos milhares de milhões de euros que vão anualmente para salvar bancos (que depois mostram ou lucros astronómicos ou administradores imensamente ricos ou as duas coisas juntas), ou para salvar empesas públicas, que depois são vendidas ao desbarato, ou para as PPPs, que foram sociedades inventadas para dar um lucro tremendo aos administradores, quando os deficientes, os que estão imensamente desfavorecidos, para além de viverem com as dificuldades inerentes, muitos vivem no limiar da pobreza.

Estamos numa sociedade que tem que começar a pensar em quem é que devemos dar valor, se às pessoas, se às coisas, se às instituições endinheiradas. Eu, voto nas pessoas, sem pensar 2 vezes.

Para a pessoa que me disse que eu devia era trabalhar em vez de estar a viver de papo para o ar, eu digo que nenhum deficiente vive “de papo para o ar”. Nós temos reais dificuldade de vida. Uns têm dificuldades orgânicas/funcionais, por exemplo numa coisa tão simples como respirar devidamente (como eu), outros têm problemas físicos, outros problemas mentais/cerebrais/psicológicos, e todos são difíceis de ultrapassar. Aconselho-vos a ler alguns posts deste blog (como “peregrinação à nossa senhora da asneira“), por exemplo, porque eu trabalho, pago contas, pago impostos, cumpro com todas as minhas obrigações, e tento fazer tudo o que uma pessoa normal faz. E sou deficiente.

Infelizmente, vivo com discursos de ódio diariamente. Já me habituei, de certa forma, a conviver com isso no meu dia-a-dia. O que não quer dizer que os ature de ânimo leve, até porque são considerados crime, e podem ser punidos não só com coima monetária (que reverte para o ofendido, para além do pagamento total dos actos de justiça), mas também com prisão…

Aconteceu-me, uma vez, uma colega de trabalho ter-me perguntado se eu teria ajudado outra colega a tomar medicação (não é “tomar medicação”, os “medicamentos” são só o bode expiatório, no contexto deste parágrafo). Isso é preconceito, assumirem que, como eu “tomo medicação”, ensino os outros a “tomarem medicação”.

Uma chefia minha, quando lhe fui pedir um aumento, porque tive uma proposta melhor e estava a fazer um excelente trabalho em 2 obras (estando só a ser paga por uma, e mal), insinuou que eu era um fardo para a empresa. E continuou: “nós aceitámo-la! como é possível estar a pedir uma coisa dessas!”.

Outra chefia, face à necessidade de ter que usar máscara para ir ver uma lixeira ilegal (no meu primeiro trabalho, 6 meses depois de fazer o transplante, em que trabalhava numa Câmara Municipal nas imediações de Coimbra, e que corria imensos riscos ao não usar máscara por si só, quanto mais em situações realmente nefastas para mim), chamou-me à parte e, quando estávamos sozinhas perguntou-me se eu sabia que estava a expor-me a uma situação em que seria considerada inferior aos trabalhadores do estaleiro. No entanto, aconteceu precisamente o contrário, como todos nós temos ou vivemos algumas fragilidades, ou as de pessoas que gostamos, praticamente todos (se não todos) me respeitaram desde o primeiro dia. Muitos deles ainda me mandam mensagens para desejar um feliz Natal. Alguém manda mensagem a desejar um feliz Natal a uma pessoa que considera inferior?

Portanto, e para terminar, à pessoa que me perguntou o porquê de escrever este blog se os deficientes não são pessoas, ou para os que eventualmente questionem a minha motivação para escrever este blog, a minha motivação não é só uma, são imensas:

É a mudança da Constituição Portuguesa (na parte em que nos trata como “os diminuídos”.

Eu páro quando existir um código do trabalho específico para deficientes (e não esta palhaçada, que só menciona uma vez a deficiência, num artigo demasiado generalista e todas as outras vezes que a menciona é relativa aos filhos do trabalhador). Quem o lê pensa que os deficientes não trabalham.

Páro quando, deixar de ouvir comentários como “ah, já está a sorrir, deve estar em condições para trabalhar” (médicos, numa consulta da segurança social para justificar a baixa) antes de terem lido os meus relatórios, ou terem-me medido a pulsação ou tensão (ou fazerem qualquer outro acto médico, que provaria ser razão suficiente para me mandarem para casa), como se uma pessoa que sorri não possa ter uma deficiência ou doença incapacitante para trabalhar.

Eu páro quando me tiverem em conta, quando deixar de sentir que as minhas opiniões não são válidas, e me começarem a ouvir como uma pessoa que é uma mais valia para esta sociedade – por exemplo, quando contei à família do meu marido que tinha uma ideia para um produto , uma inovação na minha área trabalho, e que estava a pensar lançar a patente em vários países, algumas riram-se, como se fosse uma coisa impossível eu inventar o que quer que fosse, quanto menos lançar uma patente… Tenho esta inovação na minha cabeça – e nas minhas obras, embora exclusivamente quando sou Gestor Ambiental – há demasiado tempo. Quando contei ao meu pai, que sabia bem o que tinha ali (eu, e a invenção), começou logo de imediato a ver a legislação dos países que valorizassem esse produto (e eu tive que o limitar nisso, porque para ele, seria uma patente a lançar no mundo todo). A verdade é que se ele estivesse vivo, a patente já estaria lançada e o produto já existiria. Só que, pouco depois de lhe ter contado, faleceu e desde então que não tive mais energia para continuar com esse projecto ..

Pararei quando as horas de um dia para uma pessoa deficiente forem iguais às horas de um dia para uma pessoa normal…

Páro quando não houver preconceito nem discriminação aberta, em contexto algum, quando eu não for julgada por pedir um aumento no trabalho, ou por tomar medidas que minimizem o meu risco, como deficiente. Ou quando as minhas acções, carácter e a minha consciência não forem postos em causa por eu ser deficiente.

Vou parar quando houver uma representatividade suficiente de pessoas com deficiência no nosso parlamento, e que realmente nos defenda.

Ou então, vou parar quando morrer (uma das coisas que um leitor me pediu, para me matar de uma vez, de modo a não chatear mais ninguém).

E vou, vou mesmo morrer. Mas, até lá, estou e estarei aqui para me fazer ouvir, para defender os nossos direitos. Para defender os que são como eu, mas não têm possibilidade de se defender,

E sabem que mais? Os discursos de ódio podem-me atrasar um bocado, podem-me deitar abaixo e deprimir-me ainda mais, mas nunca me farão calar, muito pelo contrário.



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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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