Boas Festas?

Não. Más festas: dores horríveis, de cérebro, olhos e de rins (que pareciam que iam implodir) e no resto do corpo, febre, tosse, isolamento.

Já não passava um Natal em isolamento desde o ano em que fiz o transplante e até assim, com obrigação de usar máscara e ter que estar mais ou menos afastada de toda a gente, comi na mesa (apesar de ligeiramente afastada) e diverti-me. Este Natal, nem isso…

Tudo começou com um medicamento para a tensão e batimentos cardíacos novo, que me rebentou a boca toda por dentro (embora eu tivesse estado enviesada com o facto de o meu sobrinho, um dia, ter vomitado depois de tomar o pequeno – hoje sei que foi devido à lactose, que ele está a criar intolerância, mas na altura, não associei e pensei que tínhamos comido algo que nos fez mal). Mas esse medicamento começou também a dar-me dores no corpo, fazer visão turva, e pasmem! febre, embora só de noite… Paralelamente, houve uns trabalhos que tive que ir ver, próximo do leito de um rio. Acompanhei os trabalhos enquanto respirava um ar dolorosamente frio. Eu, que já adivinhava esse frio tremendo, estava toda enchouriçada (hiper-agasalhada), e a verdade é que não sentia frio no corpo, mas era de manhã, e sempre que respirava, o ar gelado e húmido entrava-me pela garganta e nariz: mesmo com a echarpe a tapar, o ar que respirava era um ar denso, que parecia cortar tudo por onde passava, de tão frio que era (se o meu médico lesse isto, tinha que me preparar para ouvir “O Senhor Raspanete”). À conta disso, faltei ao almoço semanal com minha equipa de trabalho e não avisei (Estava demasiado preocupada em respirar, para me conseguir lembrar de cancelar o raio do almoço), e, ainda nesse dia, ao chegar ao escritório, ouvi um raspanete tão grande de uma colega, mas tão grande tão grande (e nem tinha sido ela a marcar os almoços), que acho que o meu médico podia aprender umas coisas com ela. Ouvi, ri, gozei imensas vezes (simulei um tiro na cabeça, dois, depois simulei que estava a cortar os pulsos, e só depois de ter prometido que me ia auto-chicotear 10 vezes mal chegasse a casa, ela parou) … pelo meio, tentei desdramatizar, tentei justificar-me, mas ela queria tanto dar-me na cabeça, que lá a deixei a Drama Queen desbocar-se à vontade. A certo ponto, equiparei esse ralhete às discussões que o meu sobrinho tenta sujeitar-me, e constatei que essa pessoa não deve ter passado uma adolescência plena, e por isso descarregou assim em mim. Imediatamente criei o síndrome de falta de adolescência eficaz (eu sou tão boa!)… Qual guerra na Ucrânia, qual aquecimento global, qual fome no terceiro mundo! qual chacina na faixa de Gaza! Não, nada disso, a Ana não foi almoçar com a equipa e esqueceu-se de cancelar! O drama! O horror!

Ó vida!! Ainda pensei que me fosse afectar mais, eu que sou sempre tão atenta ao mal que me é dirigido, mas acabei por ter pena da pobre criatura, porque se isto foi, para ela, uma crise (Que me valeu ouvir uns 10 minutos de berros), apercebi-me que ela não deve ter uma vida plena, no sentido que não tem crises verdadeiras e em condições, ao contrário de mim, em que só o acto de respirar é, em si, uma crise (mas das verdadeiras)… pobre coitada! 

Não, independentemente disto tudo, eu devia ter cancelado, não isento a minha culpa, mas daí a ter ouvido aquilo tudo…

Esse respirar frio deve ter-me partido aqui qualquer coisa na minha imunidade já baixíssima, que, no Natal, quase morri. 

Já não estava em Coimbra, fiz um auto-teste à COVID que deu negativo. entretanto um colega tinha avisado no grupo do WatsApp que estava com gripe A, mas quando vi a mensagem já estava cheia de febre e de dores e nenhum dos 2 mostravam sinal de retirada, nem com o paracetamol (tanta medicação que eu tomo, e só me é permitido tomar este, em casos críticos!). Recordei, com um imenso saudosismo, a morfina das 2 vezes que a tomei: enquanto estive internada depois do transplante e quando me tiraram o útero mas este não saiu todo. Com morfina, as dores horríveis davam lugar a um nirvana tremendo! 

Eu só não queria ir para nenhum hospital da zona de Lisboa (se no “meu” hospital evitam-me como o diabo da cruz, imagino noutro qualquer!), embora estivesse atenta, demasiado atenta à minha falta de ar. Cheguei a perguntar ao meu marido quais tinham sido os sintomas do meu sogro imediatamente antes de ter ficado em coma por ter tido COVID, não  fosse acontecer-me o mesmo, e de ter-lhe pedido para, no caso desta necessidade, ele me levar para Coimbra primeiro, para poder ter mais apoio da Cirurgia Cardiotorácica…

Hoje, passado um Natal e o resto dessa semana de cama e uma passagem de ano fechada em casa – nem fui à janela bater nos tachos como os demais (para espantar o ano velho), ainda estou fanhosa, tenho uma tosse cavernosa que me tira a capacidade de respirar, principalmente quando estou deitada. Tanto, que até me esqueci de que tenho as unhas do pé a cair, e arrisquei tentar conduzir, no início de 2024. E consegui! 

Valham-me umas dores para esquecer outras! A verdade é que não foi tão à sorte assim – fui ao médico de família para que ele me passasse a baixa por ter estado de cama, e pedi-lhe para ele ver os meus dedos. Ele, disse-me que já não havia preocupação de maior, porque por baixo das unhas negras já se tinha formado uma película, pelo que não haverá problema quando caírem.

Ainda na passagem de ano, houve as resoluções de Ano Novo e as constatações do ano velho “da praxe” – Retiro sempre algum tempo para fazer isto:

Depressa reparei que, estranhamente, o ano velho me tinha dado tudo – não estou morta (coisa anormal, uma vez que a moda da morte dos transplantados cardíacos é aos 9 anos e a média de vida de um transplantado é de 14-15 anos) – e este ano vou atingir a maioridade de coração. (18 aninhos de coração! Yuppi!), estou mal, mas não assim tão mal que, por exemplo, não consiga sair de casa, tenho juízo a 100% (ou nem por isso, porque nunca fui 100%, mas tenho o meu juízo anormal nos meus níveis da normalidade, e, apesar de já não ter (quase) família nenhuma, tenho o meu marido e o meu sobrinho bons de saúde (e recomendam-se!), os amigos velhos mantiveram-se, arranjei amigos novos, viajei e pertenço ao grupo das pessoas favorecidas que tem uma casa e um trabalho que permite a minha subsistência, logo, tenho todas as condições para ter uma vida plena (à minha maneira – que não, não é uma vida plena igual à das outras pessoas “normais”)… o que mais poderia pedir? 

Mais um ano assim, pois claro!

MAS!… Com menos stresses (se for possível, please, aninho!), com mais harmonia, mais respeito, mais níveis de energia, mais haveres e menos “chiliques” (daqueles que me fazem pensar “é agora que vou morrer mesmoooo!”).

Foi por isso que, após um ano de existência deste blogue (O blogue existe desde o final de 2022, altura em que me comecei a organizar para lançar artigos com regularidade, que publico desde Fevereiro de 2023), decidi ir com mais calma, e não ser tão exigente comigo mesma: irei passar a escrever post’s mensais, porque esta obrigação de escrever artigos a cada 15 dias é demasiado stressante, e muitas vezes, com tudo o resto que se passa na minha vida (e que não é pouco), não consigo dedicar o tempo correcto ao BLOG – ainda não estou muito familiarizada com a edição, nem com a plataforma do “blogue” em si, e ser autodidata é mais difícil do que pensei inicialmente.

Então, prometo que os posts mensais serão os certos, o que não invalida o facto de eu escrever no blog um ou outro artigo no meio do mês, pelo que vos peço para subscreverem – dessa maneira, nunca mais vão ter que procurar pelo meu site, porque passam a receber no vosso e-mail o link directo para cada post.

Concluo, a desejar-vos, nomeadamente aos meus leitores, tanto aos fiéis subscritores, como aos leais que não subscrevem, mas também aos ocasionais ou incertos, que tenham um ano cheio de vida, de energia, de pensamentos positivos, de saúde, e de prosperidade.

E que as minhas “más festas” tenham sido umas boas festas para todos vós.

Feliz 2024!!!



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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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