Sara Tavares

“Print screen” do videoclip de Sara Tavares, “Coisas Bunitas”

E assim num instante, 2 meses se passaram e já estamos quase em 2024.

É verdade, não escrevi nenhum “post” nestes 2 meses, porque na verdade, não tive tempo absolutamente nenhum. Deixei, inclusive, passar o dia internacional da deficiência (3 de Dezembro) sem escrever nada. É condenável não o ter feito.

Mas esta altura do ano é o tempo dos “check-ups” médicos (biópsia cardíaca, eco’s a tudo e mais alguma coisa, mamografia, entre muitas consultas, eletrocardiogramas, raios-x ao tórax e análises ao sangue), de fazer todas as formações que a empresa descurou no restante ano, de rever os relatórios anuais (de trabalho) relativos ao ano passado (e que só agora vêm os pedidos de esclarecimento), tratar deles e enviá-los. A misturar com tudo isto, aconteceu a COP – Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (e como tem directamente a ver com a minha actividade laboral, auto-exijo-me a uma atenção particular ao que acontece por lá). Depois, para juntar “À festa”, tive um quase acidente quando estava a regressar do almoço de aniversário da minha empresa (com sapatinho de ir ao pito e não botas de obra): Um colega atropelou-me um pé, e ainda estou a sofrer as consequências.

O resultado de tudo isto? para além de não ter escrito os “posts” do costume, estou em sofrimento antecipado face à previsível queda das unhas (que, surpreendentemente, pararam de crescer), detectaram-me um caroço numa mama e o “foi gras” no meu fígado cresceu. Então, toca a agendar mais uma ressonância e mais uma mamografia. Para as unhas, a resolução foi rápida: uso umas botas de obra, um número a seguir ao meu (que me fazem parecer uma pata a andar, porque são parecidas com umas botas de borracha). Não me incomodo muito com a aparência, em oposição ao meu marido e sobrinho. Não ter dores está sempre acima da elegância, para mim. Fui a um evento ao Coliseu do Porto, com elas calçadas. E fui invejada, porque estava um frio do caneco, e toda a gente estava a bater o dente, menos eu. Inclusive elogiaram as minhas botas da neve. Eu, não me descosi…

Quanto aos exames, não consegui esperar pela mamografia (que me foi agendada para Janeiro de 2024), e fi-la por intermédio do médico de família. Acontece que escolhi uma clínica duvidosa, porque tenho o caroço numa mama, e detectaram-no do outro lado. Quando estava a falar com uma amiga sobre isto, e a queixar-me (Porque é que estas coisas só me acontecem a mim?), ela diz-me: “não, não te acontecem só a ti. Essa mesma clínica detectou-me recentemente pedras na vesícula”. E então? – pergunto. Ela responde-me “Eu já não tenho vesícula há mais de 10 anos.

Este universo de coisas estúpidas que não deviam acontecer ultrapassa-me.

No meio desse emaranhado de reviravoltas inesperadas e acontecimentos que parecem desafiar a lógica, no sentido de que desafiam a nossa noção de normalidade, deparo-me com coisas espectáveis, e não posso deixar de pensar nas recentes notícias das mortes da minha Lurdes (uma transplantada cardíaca amiga, que cujo transplante aconteceu entre o da minha mãe e o meu) e da Sara Tavares (vítima de cancro cerebral).

Da Lurdes, soube-o a medo. Tenho sempre muito receio de perguntar pelos “meus”. Tanto, que é raro fazê-lo. Mas como já não a via há algum tempo, e ela estava sempre a mudar de número de telefone (logo, quase nunca tinha tido a possibilidade de falar com ela – era mais fácil ir à Costa Nova vê-la), decidi que tinha que perguntar por ela. Esse medo transformou-se em tristeza quando a Enfermeira Marta me disse que ela já tinha falecido há algum tempo. Custa sempre muito ver “os nossos” morrerem, porque é algo que sabemos que, mais tarde ou mais cedo, acaba por nos acontecer a nós. Não precisa de ser uma razão específica. Acontece. O nosso tempo de vida é previsivelmente curto (isso está nos meus relatórios médicos), logo, a hipótese de ter morrido de uma infecção num dente ou devido a ter tipo uma complicação com a diálise é a mesma coisa. Morreu e pronto.

E assim sei que a minha morte, mesmo sem ter nada a ver, está mais próxima.

Da Sara Tavares, soube-o através da comunicação social. Eu era uma fã fervorosa, recordo o seu início de carreira, que continuou de maneira fantástica a partir do Chuva de Estrelas (um concurso televisivo musical dos anos 90) até ao seu último projecto.

A Sara enfrentou um diagnóstico desafiador, uma batalha contra uma deficiência implacável. E sim trata-se de uma deficiência e não de uma doença, porque um cancro é uma incapacidade que o organismo tem de impedir a reprodução das células a um ritmo anormal. As doenças são as consequências do cancro, a falta de imunidade, a fraqueza, etc. O cancro é a base, que tanto pode matar devido a uma mera constipação como devido a uma infecção urinária.

A pior parte é que, normalmente, estas pessoas são muito mais humanas que o resto. A minha mãe, era a pessoa mais boa da humanidade e arredores, para ela estava sempre tudo bem, mesmo que muita coisa má lhe acontecesse, tinha sempre uma palavra amiga para toda a gente e um sorriso pronto. Enfim, era o suprassumo da boa vontade. A Lurdes, era um amor, fui visitá-la por várias vezes à sua casa, e, na sua terra, toda a gente gostava dela (fácil de adivinhar quando, na 1ª vez que lá fui e não dei com a casa, perguntei a um grupo de pessoas, numa rua adjacente, e foram-me lá levar, enquanto falavam da “Lurdinhas”, quando ela era mais ou menos da idade da minha mãe), o que faz adivinhar o seu carácter.

A Sara Tavares, aparentemente, também. Depois da sua morte, apareceram relatos um pouco por toda a parte da sua capacidade para contornar obstáculos. Ela não nos deixou só a sua fantástica herança musical, mas também um legado de perseverança e empatia que foi amplamente reconhecido . Infelizmente, nunca a conheci pessoalmente, mas a sua simpatia genuína e calor humano eram do conhecimento geral e destacavam-se em interações pessoais, mesmo quando os holofotes estavam virados para o seu talento.

As fragilidades e dificuldades que vivemos como deficientes são só uma parte da nossa condição humana. No entanto, é exatamente nessa vulnerabilidade que descobrimos a verdadeira essência da humildade. Cada limitação que enfrentamos, por mais difícil que seja, torna-se uma oportunidade para explorar nossa resiliência e força interior. Vamos aprendendo e descobrindo aspectos valiosos sobre nós e sobre os outros.

Tenho pena de dizer isto, mas quando os famosos passam por isto e o mostram ao mundo, a humanidade como um todo melhora. Porque as histórias de resiliência e força pessoal motivam e criam um senso de empatia entre as pessoas. Há uma melhoria da compreensão coletiva, que mostra o que pode acontecer nas situações mais difíceis.

Tenho pena que seja preciso que pessoas morram para acordar este sentido de solidariedade e consideração.

Temos muito a aprender com estas pessoas. Eu incluída.



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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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