O início das minhas férias pautou-se com um convívio. Foi fantástico, fora o facto de, na manhã antes desse almoço, ter tentado cortar as unhas dos pés, e só ter conseguido fazê-lo no pé esquerdo – Para fazer o mesmo no pé direito já estava demasiado cansada (a história da minha vida…).
Não tenho fé que consiga fazer essa empreitada de uma vez, mas tenho que a consiga fazer nas horas ou mesmo dias seguintes.
Em vez disso, estive as férias todas (os 17 dias) com as unhas de um pé cortadas e as do outro, por cortar.. .
Acho que me valeu o facto de não ter reparado em ninguém que tenha notado que não tinhas as unhas de um pé cortadas. se tivesse visto, provavelmente isso iria condicionar o meu “à vontade” para o resto das férias.
As minhas férias coincidiram com a vinda do Papa a Portugal, para as Jornadas Mundiais da Juventude.
Como só saio para a praia a partir das 17h (os transplantados tomam medicação que pode induzir ao cancro, e quando há outros factores associados, é necessário haver precaução redobrada), aproveitei para assistir aos vários directos com o Papa.
Adoro este Papa, é um líder perfeito, um servidor. E o Papa Francisco fá-lo com uma devoção inspiradora.
Depois, porque, claro, manifesta a inclusão de todos na igreja. eu sinto que fui excluída há muito tempo, porque o meu 1º padre, dizia que somos pecadores desde a nascença.
Ora, nunca entendi como é que um bebé seria pecador, nem porque todos poderíamos tomar a hóstia, desde que tivéssemos feito a primeira comunhão. nem como é que uma missa (a primeira comunhão, para mim, era nada mais que uma missa – aliás, era mais chata que uma missa, porque tendia a durar mais tempo.), nos retirava de todos os pecados do mundo.
Ou seja, apesar de adorar hóstias, e de as comer às mãos cheias quando o meu avô era sacristão (quando ainda não estavam benzidas), oficialmente, fugia delas como do diabo da cruz: sempre achei que o acto de comungar era algo impensável a alguém tão pecadora como eu. Confesso que quando era pequena, só queria comungar se me confessasse antes (e para esse padre, todos os pecados eram abomináveis). Como essas ocasiões eram raras, comungava só porque se não o fizesse as catequistas iriam perguntar-me o porquê de não o ter feito, e eu tinha receio de lhes dizer que tinha comido uma pastilha às escondidas da minha mãe, ou que tinha caído e não tinha dito ao meu pai com medo de represálias, ou que tinha mentido a alguém, e por isso, não podia comungar. E então, fazia-o, com a certeza de que estaria a fazer um pecado maior que se não comungasse. Assumi esse pecado de tal maneira, que hoje, não consigo comungar. só o faço em raras ocasiões, em que é reprovável socialmente se não o fizer (por exemplo, no meu casamento).
Sim, sou uma hipócrita.
Foi essa a exclusão que desde cedo senti pela igreja.
Deixei a catequese, e raras vezes tomei a hóstia novamente.
Décadas depois, já estava com o meu sobrinho, um dia ele perguntou-me se brincar era pecado (o padre da minha paróquia é do género do meu 1º padre). Então, decidi que o tinha que retirar dali quanto antes: Fazia questão de assistir às suas aulas da catequese (felizmente, as catequistas aprovavam esse hábito), para relatar ao meu sobrinho a verdade dos factos. Deixámos de ir à missa (para grande felicidade do miúdo), e o foco principal era o seu baptismo, que coincidiria com a sua primeira comunhão. depois, o vazio (que acabou por se encher com a ida para um colégio católico).
O Papa Francisco deu este alerta aos padres, o que muito me agradou, embora não me tenha retirado o trauma, talvez consiga mudar algumas mentalidades. Tenho fé nisso.
É claro que hoje, acredito principalmente no bem que há em nós, e não no bem que se vai buscar a um determinado local. Sei que a invenção da igreja foi feita para retirar o divino que temos dentro de cada um de nós e alocá-lo a outrem, num determinado contexto, para que nos tornássemos “controláveis” (embora a maldade se tivesse mantido conosco). Por isso, e por outras coisas, aos poucos, deixei de acreditar no Deus da igreja, porque foi a própria igreja e os seus membros que me fizeram desacreditar nela.
No que acredito, então? em mim, e na imensidão de pessoas boas que existem por aí. e no seu tamanho interior, que de tão grande que é, extravasa bondade e bem-estar para os outros.
Às vezes chego a não acreditar que haja pessoas tão boas como as que encontro e com quem privo diariamente, principalmente em contexto de perigo e pânico, que foi o que aconteceu numa sexta feira ” destas”, na Praia do Barril. Sendo uma ilha (que pertence às ilhas de Tavira), é obvio que os acessos são dificultados, e enquanto instituições (como o 112), se estiveram a marimbar para o estado do meu sobrinho (que estava num estado de desidratação máximo, a vomitar continuamente, que depois passou para um quadro de vómitos convulsos, e diarreia, com quase desmaios).
É horrível ver uma criança nesse estado, ainda mais, sendo a nossa própria criança.
A rapidez com que apareceram médicos e enfermeiros, e estudantes de medicina, e pessoas aleatórias para ajudar foi quase imediata. E, embora o meu estado de nervos não se adequasse para responder a todos os que me abordavam, reconheci-os a todos e deixo-lhes o meu muitíssimo obrigada.
O meu enorme obrigada a todos os Nadadores-Salvadores da Praia do Barril, que foram incansáveis e que procederam à sua evacuação da ilha de maneira rápida e eficaz. não se pouparam a esforços, consumíveis ou equipamentos para tentar encontrar uma razão para o facto de ele estar assim (glicémia normal, tensão baixinha e pulsações elevadas), e para que o meu sobrinho se sentisse o mais confortável possível, e ele muito agradece.
Agradece quando o levaram de maca. diz que nunca se sentiu tão bem como nesse momento, tendo mesmo chegado a desconfiar que estaria no limbo (uma vez contei-lhe qual a sensação de se morrer e ele recorreu a essa memória para categorizar o que sentia). Já lhe disse que não, que se estava a sentir tão mal, que qualquer melhoria do seu estado o faria sentir-se no céu.
Já no final (depois de termos atravessado a ilha), quando tinha dado tudo ao meu marido (que tinha ido buscar o carro), agradeço a uma senhora que me deu uma garrafa de água, que foi a salvação do momento. Uma médica pediátrica também, nessa altura, começou a fazer perguntas ao Dinis, que embora o estivessem a cansar e a irritar, eu reconheci-as: as respostas indicar-lhe-iam de que estava consciente e orientado. Uma simpatia. Essa médica pediátrica foi chamada pela estudante de medicina, também incansável, mas a fazer perguntas mais técnicas. Boa, miúda. A empatia é algo muito necessário para lidar com doentes. Vais chegar longe.
Não fiquei com o nome de ninguém, a situação e a urgência não o permitiram. mas fiquei com uma gratidão profunda por todos eles.
Por fim, mas não menos importante, agradeço ao amigão que nunca nos deixou, nunca. Deu banho ao meu sobrinho, calculo que tenha levado com diarreia nos pés, como aconteceu a outros (os meus chinelos, foram directamente para o lixo, não fosse eu germofóbica…), o Marcos.
No final, acompanhou-nos ao hospital. Esteve sempre ao lado do meu sobrinho. Enquanto eu andava tipo barata tonta sem fazer o que fazer, O Marcos, sempre foi um rochedo, a indicar-me o Norte. a sua calma, a sua atenção ao detalhe, a sua disponibilidade foram indispensáveis para que, no final, tudo corresse bem.
Ambulâncias numa crise destas? Não houve – recusaram a ir buscar a criança, porque, pelo que nos indicaram, o “quadro” apresentado não justificava a mobilização de um meio desses.
Não justificava o raio, um miúdo nem conseguia sentar-se, sem ou vomitar ou desmaiar. Se fosse filho de alguém importante, já estariam no local 3 ambulâncias à espera… Que país de merda!
No Hospital, em Faro, nas urgências pediátricas, a falta de acessos para poder vir uma maca ao carro buscar o miúdo, foram uma constatação da falta de inclusão (um hospital onde macas não podem entrar ou sair???). Eu descalça, a em pânico, numas urgências, a gritar por uma maca, já o segurança se estava a preparar para me pôr na rua…
Depois, no final, acabou por sair, bastante fraco, e teve uns bons dias para recuperar.
Depois, veio o meu fanico, o da praxe (todas as férias tem que me acontecer alguma coisa menos boa) – na praia, aventurei-me com o meu sobrinho a uma praia anexa à Praia de Arrifes, cheia de algas e rochas que não deixavam ver onde estávamos a pôr os pés, e, na tentativa para entrar no mar, quase caí (apoiei-me com os dedos das mãos nas rochas para que isso não acontecesse) e, ao tirar essa mão do meio das algas, tinha um dedo mindinho, virado 90º para o lado de fora.
Enquanto dizia uma boa mão cheia de asneiras, meti a mão à água (sabia que ia doer, e a água estava bastante fria, e também para não ver a porcaria que possivelmente iria fazer), voltei a endireitar o dedo (o que não quer dizer que o tenha colocado na posição mais correcta, porque estou com esse dedo visivelmente torto).
escondemos de todos até não ser mais possível, devido à dor e ao inchaço. Estive a curar a maleita com uma boa dose de aguentix e muito gelo – consegui fugir de hospitais e afins. que se lixe o dedo, é só um mindinho, os “rapazes” que lavem a loiça a partir de agora.
O meu sobrinho, contou-me que eu disse todas as asneiras que ele conhecia (recordo-me, depois de termos brincado com o momento, de ter ficado preocupada, porque eu recordava-me de ter dito todas as asneiras que eu conhecia, mas como é que ele sabia todas as asneiras que eu disse?)
Por fim, depois de umas férias com um tempo (para mim) maravilhoso, em que choveu, e em que esteve um mar com uma temperatura (para mim) espectacular , veio o último dia, o dia em que só consegui sair de casa pelas 19:30, tal era o calor que estava “lá fora”. pus a cabeça à rua à hora normal de sairmos, às 17:00, e verifiquei que não conseguia respirar, dado o calor que se fazia sentir – a realidade das alterações climáticas a fazer a sua selecção natural.
Há dias, disse a uma amiga que previa que ia morrer de calor. Se tivesse arriscado sair a essa hora, não sei se sobreviveria para contar esta história, tendo em consideração que as mortes provocadas por calor extremo são uma realidade crescente hoje em dia.
O que é que valeu, no final, fazendo o somatório dos contras e dos prós destas minhas/nossas férias?
O que pesou mais, sem dúvida, foi o dia em que o meu sobrinho ficou mal, reconheci de imediato esta má disposição, em que qualquer variação, de calor, de qualquer factor externo, faz-nos sentir mal.
Reconheci o tempo: a minha mãe foi transplantada com 54 anos, eu, com 29, pelo que não consegui evitar fazer analogias do género. o resultado daria daqui a 2-3 anos.
Não pode ser, não pode ser, não pode ser, repetia para mim mesma, muitas e muitas vezes. tantas que me vi, de repente no meio do caos, a tirar uma fotografia à paisagem. À paisagem!! (foto do post).
Passei esse dia todo numa luta interna, rezaei, a um Deus que só vislumbrei 2 vezes, talvez 3, para que não fosse uma doença parecida ou semelhante à minha, para que fosse uma coisa normal corriqueira de crianças que pulam depois de comer, de crianças que bebem demasiado sumo de laranja natural, crianças que comem ovos na praia, crianças que vão ao mar e engolem pirulitos, e estas coisas acontecem. claro que acontecem!.
Porque eu não consigo viver outra catástrofe, não consigo. esta última já me desproveu de todos os recursos internos. não me resta mais nada!.
Não, não, não, não! Para deficiente, basto eu. só eu! mais ninguém!
No final, depois de todos os stresses e dias regulares, acabei as férias praticamente da mesma maneira que comecei: um bocadinho mais de coração, inchado pelo stress vivenciado, umas chinelas novas e um pé com as unhas cortadas e outro com as unhas por cortar.
Valha-me a regularidade da vida.

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