As leis da termodinâmica aplicadas a mim

Uma coisa que para mim é sempre difícil, é o acto de tomar banho. Porque tenho que verificar se a tensão sanguínea se coadugna com o acto, e se tenho energia disponível para fazê-lo.

Se tiver com pressão nas mínguas, é melhor nem me levantar.

Muitas vezes quase desmaio no banho (desde depois do transplante, este tipo de pré-desmaio é muito frequente. Antes, desmaiava por tudo e por nada) – o meu médico diz que é o conjunto de tensão baixa, que, com o efeito de vasodilatação que a água quente faz, a minha tensão tende a cair a pique. já tive que sair do banho e ir de gatas para a cama muitas vezes, toda molhada, para não desmaiar por completo. Outro truque, é tomar banho de água fria. No verão, é fácil. No inverno, nem tanto…

Na verdade, contam-se pelas mãos as vezes que realmente desmaiei (perder os sentidos). Detecto um pré-desmaio como ninguém, e actuo logo em conformidade: arrasto-me, de gatas,  com a cabeça mais baixa que o coração para um local onde me possa deitar, e coloco as pernas mais altas que a cabeça. Essa, é a única maneira que me safa de sofrer um desmaio completo.

Aqui há dias, desmaiei completamente, depois do raio x. porque tive que despir e vestir a camisola e depois tive que andar uns 5 metros até à sala de espera para ter a consulta. Sentei-me, pedi para chamarem alguém. Logo a seguir veio a enfermeira Marta com uma cadeira de rodas. Ainda consegui pôr-me na cadeira de rodas, mas já não me lembro de dar a curva para entrar na enfermaria. A enfermeira Marta disse que eu ainda falei com ela depois de entrar na enfermaria, e que só me teve que segurar quando já estávamos no balcão. Um claro sinal que o meu cérebro foi feito para falar, e não para desmaiar.

Esses pré desmaios acontecem sempre que estou mais fracota e quando tenho que fazer qualquer tipo de esforço com os braços ou sempre que tenho os braços acima da cabeça: lavar a cabeça, estender a roupa, ir buscar pratos ou outra coisa qualquer às prateleiras superiores, pegar em pesos (panelas, o computador, o tabuleiro da comida, por exemplo, são um risco), trocar de sapatos (é por isso que desisti de trocar de sapatos das obras: calço-os uma vez e fico com eles até ao final do dia, por muito que me gozem, por muito que eles sujem, e por muito que cheirem mal), e por aí.

Quanto à energia, depende – há dias em que acordo com energia QB, e nessas alturas, dá para tomar um bom banho, vestir-me, já me calço com algum esforço, porque a energia está quase esgotada… nesses dias, no trabalho, tento ir à obra pelo menos uma vez ou duas e passo o resto do dia no escritório.

Outros dias, não consigo tomar banho, e então lavo as partes íntimas no bidé, para fazer o mínimo de movimentos e esforço. Vestir-me é complicado, calçar-me é um esforço Hercúleo, e, se conseguir, só vou uma vez à obra, no trabalho.

Também tenho dias em que nem isso consigo fazer. Nesses dias, é o meu marido que entra no jogo: eu lavo-me, ele veste-me e calça-me, e, no trabalho, mantenho-me no escritório o dia todo.

E depois tenho os dias fantásticos, os dias em que estou no meu melhor – nesses dias, tomo banho, visto-me e calço-me na maior, no trabalho, estou sempre na obra, e quando regresso a casa, ainda me resta energia para tomar banho, tirar a poeira da obra do corpo. Esta seria a minha vida ideal. Até porque se eu tomo banho à noite (coisa que é raro acontecer), já não preciso tomar banho completo na manhã seguinte.

É uma logística difícil de fazer:

Aos domingos, recato-me para poder tomar banho à noite, para na 2ª feira de manhã preocupar-me só com a higiene íntima. Nas 2ªas feiras vou de 2 a 3 vezes à obra. Se conseguir, vou uma 4ª.

Como já não tenho energia para tomar banho à noite, então, na 3ª feira tomo banho e vou 1 ou 2 vezes à obra.

Na 4ª feira já não consigo tomar banho, só lavar-me, e vou só 1 vez à obra.

Na 5ª feira, já me estou a arrastar, e não vou à obra (ajuda ser dia de reuniões).

Felizmente não trabalho à sexta feira. Se não às sextas seria dia de paragem cardíaca.

Se tiver os domingos complicados, muda a logística toda, e atrasa-me completamente o planeamento – à 4ª feira fico pronta para morrer.

Esta minha doença não se coadugna com horários, mas sim com objectivos.

Eu não trabalho à sexta feira, e por conseguinte, o meu salário é de acordo com os 4 dias de trabalho efectuados. No entanto, cumpro todos os objectivos de uma pessoa que esteja a trabalhar a 100%, o que não é justo o menos que recebo. Nada justo.

Porque é que de uma vez por todas não se dá mais valor à eficiência em prole do tempo que se está no trabalho, muitas vezes, a fazer outra coisa para se passar o tempo? É das coisas que mais odeio neste sistema.

Actividades depois de chegar do trabalho, são para esquecer: eu nunca terei uma vida plena, como hobbies, ou as coisas que as pessoas normais fazem, porque quando saio do trabalho, o meu dia acaba aí. O meu grau de cansaço não permite sequer pôr roupa a lavar, ou tirar nódoas de roupa. Muito menos apanhar a roupa do estendal. Ou pôr e levantar a mesa – essas tarefas têm de ser bem alocadas aos outros membros da família.

A minha casa está sempre a maior confusão porque eu não tenho energia para fazer mais nada, e o meu marido, que tem hobbies, já faz o jantar. O resto? O resto que se lixe! É uma casa desarrumada, mas, felizmente, muito amada.

O meu médico ainda me pede para eu tentar andar ao final do dia, (para ajudar a desentupir as artérias) mas andar quando se está já de caixão para a cova, não é a coisa certa a fazer…

E depois sofro de insónias, o que é outro sugador de energia. Se vejo que vou ter insónia numa noite que me vá atrasar tudo para o dia seguinte, tenho que me precaver: entre as 18 e as 19 horas adiciono mais uma bomba à minha extensa lista de medicação (que é uma folha A4 cheia), e fico a dar espectáculo para o meu sobrinho (o medicamento que tomo é um amnésico, que me faz dormir, mas não sem antes fazer muita palhaçada)

E, no verão, muito pior, porque o corpo usa energia para tentar equilibrar a temperatura corporal. Os doentes cardíacos odeiam o calor. Em deficientes como eu, tudo muda com o calor: o cansaço aumenta, a tensão descontrola-se, os batimentos cardíacos aumentam, o coração fica sobrecarregado, tanto que trabalha maioritariamente para o cérebro e tem que esquecer o menos importante, e com isso, há a acumulação de líquidos, que nos impede de respirar correctamente, as paragens de digestão são a prata da casa (porque as digestões, são sugadores de energia, e, para o coração, desnecessárias), e é um ciclo vicioso. Cada verão que eu consigo tolerar é uma vitória para mim. Também trabalho no verão, mas tenho noção do quanto me desgasto, e o quanto esse desgaste vai deteriorando a minha saúde.

Concluindo: gerir a energia é muito complicado para um deficiente como eu.

A coisa boa no meio disto tudo, é que tenho uns médicos e enfermeiros espectaculares, que estão à minha espera em caso de necessidade e o marido mais fantástico do mundo, que me ajuda sempre que preciso. Ah! e um Sobrinho que regista as minhas maluquices para mas contar no dia seguinte, que me faz cansar ainda mais pelas gargalhadas que me arranca.

É difícil ser eu…



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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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