Concurso de Professores
Saiu o concurso de professores – Não para os professores normais, mas para os professores que são deficientes, e/ou que têm cônjuges e/ou dependentes deficientes.
Este concurso é anual – o que quer dizer que todos os anos eu tenho que provar a uma entidade (que já sabe de antemão que sou deficiente por tantos outros sistemas) que sim, que ainda me mantenho deficiente.
Não é bonito.
Não é bonito porque eu não sou deficiente hoje para amanhã deixar de o ser. Quando eu deixar de ser deficiente, é porque morri, porque eu nunca mais vou deixar de ser uma pessoa que fez um transplante de coração, ou uma pessoa que, devido à sua doença base, criou comorbilidades que amanhã irão passar.
Quem me dera, mas não, não é assim.
A minha incapacidade não é temporária, mas sim permanente – esse facto está no meu atestado multiusos.
Concordo com a diferenciação do concurso.
Já não concordo com o facto de ter que ir pedir à junta de freguesia, um papel que diga que sou deficiente, e que vivo na morada X.
Não concordo com o facto de ter que perder o meu tempo (bastante precioso, porque eu não irei viver o tempo que uma pessoa normal viveria), para ir à junta de freguesia, arranjar testemunhas – vizinhos ou proprietário de um negócio próximo da minha residência, e ainda ir ao Hospital, para que o meu marido possa dar-me apoio durante o resto do ano.
Não concordo com o facto de ter que usar o tempo tão precioso do meu médico da transplantação cardíaca, que tem que redigir um relatório, a indicar a minha deficiência, indicando as minhas limitações, que vão aumentando todos os anos (no início, quando me casei, era um relatório de meia página, e hoje já é um relatório de página e meia), e ainda preencher um questionário de 3 páginas. Estou a falar de um médico que tem mais ou menos 400 pacientes, para além dos transplantados e que estão internados e para além dos que estão internados mas que não são transplantados. E podem parar de fazer contas dessas, porque nós somos um género de pacientes que podemos ter que ir ao Hospital todas as semanas. E nós somos pacientes complicados, do género de ter que fazer um TAC+RM ao fígado com urgência, do género de ter que ser-se operado com urgência, do género de ter que colocar um stent com urgência, do género de ter que levar sangue ontem, do género de ter que levar potássio agora (com as repercussões de se levar potássio – ainda tenho pesadelos com isso), do género de apanhar uma infecção e entrar em coma, do género de ficar com um órgão insuficiente e morrer…
Eu considero o tempo dos médicos valioso, o tempo que eles passam a passar atestados destes e a preencher este género de questionários, poderia e deveria ser alocado, por exemplo ao estudo das diversas patologias (que são cada vez mais), na investigação, na escrita de artigos científicos, etc, etc. e dá tempo para isso!
E por isso temos uma comunidade médica entalada em burocracia (como em tantas outras profissões), que ainda trabalha cerca de 24 horas seguidas, entre tantas outras coisas, e depois questionam-se porque é que os médicos estão cansados e revoltados…
E porquê?
Porque uma das causas é o facto de passarem muito tempo a preencher papelada irrelevante, que nem sequer devia ser considerada para preenchimento!
Mais! Este ano tiveram a “grande inovação” de que as testemunhas (os vizinhos ou o dono do negócio), têm que apresentar o correspondente Cartão de Cidadão, na Junta de Freguesia.
Como eu tenho vergonha na cara, lá fomos convidar a Maria (nome fictício) e o marido para irmos almoçar (mesmo ao lado da Junta de Freguesia), para que eles nos fizessem este tremendo favor, favor esse que devia ser automático. E, claro que a Maria recusou, mas foi à mesma, perder o seu tempo para ir à junta mostrar o seu CC (Felizmente, tenho a sorte de estar rodeada de pessoas fantásticas).
Toda esta exposição, custa-me imenso. E a imensa burocracia associada dificulta o correcto planeamento.
A solução? Desconsiderem a necessidade de cumprir estes procedimentos para os que têm uma incapacidade permanente com a valoração mínima que entenderem! Ou comecem a associar as candidaturas com os dados das finanças (até as finanças têm acesso a esses dados, sem este tipo de exigências!).
Tchanan!

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