Subir o Green Park: Um objectivo de Vida.

Subir o Green Park: Um objectivo de Vida.

Enquanto o objectivo dos alpinistas é subir o cume Evereste, e o dos desportistas seja atingir o seu pico máximo de produtividade vs eficiência, o meu passou a ser subir o Green Park, em Londres (não me comparo fisicamente a nenhum dos anteriormente mencionados, pretendia somente fazer um ponto de situação quanto aos objectivos de vida, a nível de actividade física).

Isto porque no início do ano em que fiz o transplante, ia morrendo a “subir” o Green Park (este “subir” está com aspas, porque o Green Park não se sobe, atravessa-se! – Tem uma subida de cerca de 10 graus no início, regular, seguidos de uma subida “ingreme” bastante curta de cerca de 30 graus até se chegar à estação de metro mais próxima).

Em comparação com o acto de escalar uma montanha, que acredito que até os alpinistas mais profissionais tenham a sua dificuldade, atravessar o Green Park é zero, para uma pessoa normal. já para mim, foi a dificuldade máxima.

Era bastante frequente deparar-me com situações de fragilidade do género, mas nunca neste contexto (num outro país, sozinha (Ver “consequências de se fazer uma viagem sozinha, sendo def”), e presa num determinado local – sem capacidades físicas de sair de lá).

Tinha acordado muito cedo para conseguir um bom local para ver a mudança da guarda no Buckingham Palace. Já foi há mais de 16 anos, estávamos no início de Março, não havia as bancadas que existem hoje (logo, estive o tempo todo à espera em pé), lembro-me que estava um frio de rachar, e estava toda encasacada, para me proteger do frio. Cheguei bastante cedo, e o local em que decidi ficar era alto relativamente ao palácio, mas rapidamente aquilo encheu.

Recordo que fiquei decepcionada – eu estava à espera de ver guardas vestidos de vermelho, e com aqueles chapéus pretos estilo Marge Simpson, mas apareceram-me guardas vestidos de cinzento com bonés. Parece que há 2 fardas, as do inverno e as do verão, e em Março ainda é inverno – esta informação não vinha em nenhum lado nos meus 2 guias e fiquei danada…

Acabou a mudança da guarda e tinha que sair dali, mas o palácio de Buckingham é um local “longe” de tudo o resto – escolhi sair pelo Green Park porque era a menor distância possível (quando se tem este género de deficiência, têm-se mais olho para estas coisas – ver distâncias, calcular as rotas mais curtas, etc.).

Passava pouco das 12:00 quando deixei o Buckingham Palace.

Eu precisava de almoçar e tinha a tarde livre, embora tivesse hora marcada no London Eye para as 17:30. Planeava passear pelas casas do parlamento, na proximidade do Big Ben, durante a tarde, e tornar a reparar (desta vez lentamente) nos detalhes da arquitectura da cidade.

Estava a terminar a minha viagem, e normalmente gosto de dedicar uma tarde ou um dia inteiro a descontrair do stress de ter que estar à hora certa nos locais a visitar, e passear, devagar. Contava ligar para casa e falar com os meus pais, sentar-me à beira rio e pensar nos próximos passos da minha vida. Nessa altura estava a acabar de ficar desempregada, e precisava de um plano de acção. E as viagens, normalmente, ajudam-me a “desencalhar”, a ter ideias.

Comecei a atravessar pelo parque, e fiquei cansada de imediato. Olhei para trás e verifiquei que tinha andado poucos metros, e que me restavam ainda cerca de 2 km (pensei).

Estava bastante frio e eu tinha a boca tapada por um cachecol. Decidi tirar o cachecol, para conseguir respirar melhor e o frio cortava-me os lábios, enquanto eu andava.

O facto de as pessoas estarem a fazer a sua actividade normal admirava-me. Quando passou uma pessoa a correr ao meu lado de calções e t-shirt, “acordei para a vida”. Pensei “olha que mariquinhas, um tipo aqui a correr quase nu e eu a queixar-me que estou com frio e cansada! B’ora lá, Ana Catarina! É para andar, pensei!

A verdade é que estava demasiado pesada, e a energia do pequeno almoço já se tinha esgotado há muito (eu tinha estado de pé o tempo todo). Tinha imensos casacos, o cachecol, e tinha uma mala a tira-colo com 2 guias de Londres. Pensei: os guias já não me fazem falta nenhuma, vou deixá-los aqui e sigo mais leve.

Retirei os guias, e deixei-os no banco onde me tinha sentado, e recomecei a andar. Mas mal o fiz, reparei que os 2 livros não faziam diferença nenhuma, e regressei para os ir buscar – costumo fazer diários de viagem, e tinha apontado tudo nesses guias. Faziam-me falta, pensei.

Na altura, tive uma dificuldade astronómica até chegar ao metro. Andava e parava regularmente em floreiras, em postes, em árvores, em tudo em que me pudesse apoiar, até chegar ao banco seguinte. Os bancos distanciavam-se uns dos outros cerca de 50 m.  Aí, parava, descansava, recuperava o fôlego para a “próxima viagem”.

Temi morrer ali. Recordei-me das instruções da Dra. Fátima: “Devagar, Catarina. Sem esforços. Estás proibida de te cansares”. E ali, estava a acontecer precisamente o oposto. Estava com pressa para chegar ao London Eye (Porque, esqueci-me de dizer… entretanto, já eram 16:30, e eu, ainda ali, presa àquele corpo que não me respondia a nada do que eu queria…).

Finalmente, depois de um esforço desmesurado (provavelmente dos maior da minha vida), consegui chegar à estação de metro. Comprei qualquer coisa para comer nas máquinas e ala para o London Eye.

Cheguei ao London Eye mesmo à hora do bilhete.

E foi este o meu passeio memorável pelo parque – um objectivo de vida que nem sabia que teria que atingir.

Entretanto, na semana passada fui novamente a Londres.

Usei os mesmos guias de então e não a fiz a viagem sozinha, mas com o meu marido e o meu sobrinho.

Tentei contar-lhes, mas acho que não lhes consegui passar a alegria de estar num local que nunca imaginei conseguir regressar.

O Green Park?

É claro que não o atravessei, há coisas que têm de não ser feitas, que devem ser “deixadas para uma próxima vez”…

Reparei, que a distância que eu pensava que tinha andado era muito menor do que a minha percepção na altura – os 2 km de então não eram mais que apenas uns 640 metros…

Mas, desta vez, andei cerca de 100 km em 7 dias de visita. Andar, esse acto “simples” de colocar um pé em frente ao outro…  Fiz cerca de 14 km diariamente.

Não subi / atravessei o Green Park por opção, nem fiz subida alguma, mas conseguir andar tudo isso já foi tanto!

Fiquei bem?

Claro que não, desde o 2º dia de passeio que tenho dores terríveis nos pés, nas ancas, nas pernas, nas costas, ombros, braços e cervical – essas dores foram aumentando de dia para dia. Um dia antes de regressar a Portugal, rebentou-se-me a boca toda (lábios e cavidade bucal) e o nariz por dentro.

O corpo tentou avisar-me com dores, que basta. Quando não conseguiu, agiu de outras maneiras para me parar – tentou impedir.me de me cansar, afectando-me as vias respiratórias. A Natureza é mesmo uma coisa fantástica.

Eu sabia que alguma coisa me iria acontecer.

Mas, acima de tudo, sabia também que, desta vez, não ia morrer.

NOTA – Depois dessa minha 1ª viagem a Londres, quando regressei a Portugal, entrei em coma.



Deixe um comentário

About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

.

Newsletter