Vulnerabilidades de uma ida ao dentista

Chorei o que tinha e o que não tinha, e apesar de não perceber porque é que me estava a sentir assim, sentia uma tristeza tão profunda que achava que não tinha saída.

O motivo? Uma ida ao dentista que correu mal.

Como sou Def, não vou a dentistas normais – só posso ir ao Hospital, porque, caso alguma coisa corra mal e eu tenha uma hemorragia, só o hospital tem um determinado tipo de gel (que é suposto ser caríssimo – tão caro, que os estomatologistas normais ou clínicas privadas não têm à mão), que a poderá estancar.

O Procedimento, é algo complexo, isto porque estacionar no hospital demora sensivelmente o mesmo tempo que a evolução do Neandertal para o Homo Sapiens Sapiens. O número dos meus cabelos brancos é proporcional à quantidade de horas que procurei por um lugar para estacionar no Hospital. Ou então, tenho que acordar às 4:50 da manhã para arranjar lugar.

Depois, quando saio de casa, devo ter em consideração o tempo que demoro para estacionar, porque tenho que tomar um antibiótico com 2000 mg da substância activa dos antibióticos (uma “micina” qualquer), exactamente 1 hora antes da consulta. Se chego mais cedo, tenho que esperar até que passe esse tempo para fazer a intervenção.

Ou seja: tenho que saber fazer contas e ser mestre na arte da adivinhação, para ir ao dentista.

E, houve um dia que fui ao dentista.

É de notar que a essa altura do campeonato, já não tinha ninguém da minha família base, aquela que nos ama “no matter what” – já não tinha pais, a minha irmã mais nova tinha morrido tragicamente há uns 2 anos, e eu, que não era velha, (na altura tinha 42 anos), sentia-me sobrecarregada. Tudo o que me acontecesse sufocava-me.

Estacionei, e fui ao dentista. Como tenho técnicas de adivinhação avançadas, mal cheguei, fui logo chamada, pois já tinha passado a 1h de acção do antibiótico.

Lá dentro, as coisas começaram a correr mal desde o início. A minha dentista (a que sabia todas as minhas circunstâncias, uma das quais era o meu medo de aparelhos de estomatologia), estava de saída. Disse-me que já devia estar em Leiria, e que tinha que sair “agora”, mas que tinha dois substitutos.

Devia ter-me ido embora logo, ali, naquele momento.

Mas ela olhou para mim, e reafirmou:

-Dois! Disse isso num tom que fazia sugerir que dois seria melhor que um.

Mas não eram.

Dois inexperientes não fazem a mesma coisa que um experiente faz. Neste caso, fazem mais:

Dois inexperientes, com acesso a brocas, fazem mais buracos, e buracos maiores que um experiente.

Felizmente, a minha boca “só” merecia uma limpeza, pois não tinha cáries.

Mas o estomatologista, começou logo mal. Começou por me fazer a limpeza às gengivas, não aos dentes.

Eu sinalizava, sonoramente, as dores pelas quais eu estava a passar, até que, quase a chegar às lágrimas, levantei as duas mãos e disse “isto não está a correr bem, se calhar é melhor eu ir-me embora”.

Mas ele avança com um: “logo agora que estamos na parte onde tem mais tártaro?! Se parar agora, vai sentir a boca desigual”, como se fosse uma coisa impensável.

Entretanto, chegou uma enfermeira, que advertiu logo os médicos que eu tinha medo de ir àquele local, o que não era mentira total. Dos gabinetes de medicina dentária, a única coisa que gosto era do cheiro asséptico a cravinho ligeiramente amentolado, mais nada. Odeio aqueles instrumentos de tortura. Uma vez, estava a ter tantas dores de uma desvitalização que a médica me perguntou se eu não a ia morder. Não era minha intenção fazê-lo, estava só a fechar ligeiramente a boca porque achei que me fazia ter menos dores, mas essa alusão à mordedura deu-me ideias, tanto que fiquei logo ocupada a imaginar as maneiras como eu ia morder a médica e as suas diferentes reacções aos diferentes tipos de mordeduras, o que levou a que, na realidade eu acabasse por ter sofrido menos.

Ele (o médico) assumiu isso como se a culpa da consulta não estar a correr bem fosse exclusivamente minha, e continuou, a fazer estragos na minha boca, até a broca passar das gengivas para a parte interna dos meus lábios.

Passou uma vez e magoou-me os lábios em 2 sítios diferentes.

Passou mais uma vez, mais um buraco, mas nessa altura eu cuspi aquela cena que segura a língua, fi-lo parar o que estava a fazer, e disse: “E agora, vou-me embora, o Sr. Passou a consulta a magoar-me, portanto, vou-me embora”.

Apesar dos “mas” dele, assim disse e assim fiz.

Quando estava a sair, os lábios doíam-me, as gengivas doíam-me, e comecei-me a sentir a pessoa mais infeliz à face da terra, e comecei a chorar. O início desse choro, foi disfarçado. As lágrimas caíam-me sem alarido nenhum – praticamente não choro, mas habituei-me a chorar assim, quando acontece.

Mal entrei no carro, comecei a soluçar. Eu queria sair dali para fora, queria não ver o hospital, queria não estar ali, queria não existir. Queria que um meteoro caísse em cima do meu carro e me esmagasse.

Liguei o carro, o nevoeiro do choro nos olhos impedia-me de ver nitidamente. O nevoeiro realmente estava em cima de mim, mas era de outro tipo. Era o peso da dor – O choro saía-me com gritos graves de fundo, e o cansaço provocado pela expiração longa e barulhenta fazia com que o acto de inspirar fizesse um som de chiado agudo, à procura de oxigénio. Esse barulho não passou despercebido, e logo apercebi-me de pessoas a passar pelo carro e a baixarem-se, diminuindo a velocidade – calculei que para ver se conseguiam ver o que se passava.

Pouco tempo depois, os vidros estavam embaciados, provocados pela condensação da minha respiração.

Hoje acho que devia ter ficado aí a chorar mais. Devia tê-lo feito por horas. Devia dias ao choro, e devia ter pago a dívida aí: Precisava ter chorado todas as minhas dores, mas, infelizmente, foi a sensação de estar a passar vergonha (e se alguém me conhece/conhece o meu carro?), que me fez parar.

Não chorei tudo, mas chorei bastante – imenso, até.

No final, tive que ligar o AC do carro, para que os vidros desembaciassem.

Nessa altura, senti-me estúpida por ter chorado devido a umas feridas no lábio e nas gengivas, quando já tinha passado por AVC’s, AIT’s, Paragens Cardíacas, um coma (mais, se contarmos com os comas da minha mãe), um transplante (dois, se contarmos que o transplante da minha mãe, que me custou mais a mim que o meu próprio transplante), e a carrada de exames extremamente invasivos e complicados que tinha feito. Mais: As mortes das pessoas que mais amava, em que pouco ou nada chorei.

Dias mais tarde, na Psicoterapia, a minha Psicóloga disse que foi um gatilho. Podia ter sido um cheiro, uma memória, ter visto algo que não me recordo mas que foi impactante, para me ter feito essa reação.

Confesso que tive algumas dúvidas, e na altura necessitava mais de uma resposta concreta e de orientações de acção, mas não as tive.

Só entendi a existência e a necessidade desse choro, algum tempo depois.

Talvez tivesse sido a necessidade de extravasar todas as emoções negativas que eu teria estado a engolir em seco. O “esvaziar do copo”. Isso, faz-me muito mais sentido. Ou talvez fossem esses tais gatilhos!

Benditos gatilhos. Malditas prés-concepções sociais.



Respostas de 2 a “Vulnerabilidades de uma ida ao dentista”

  1. […] Então, chorei, quando fui ao dentista. […]

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  2. Avatar de Dinis Sampaio
    Dinis Sampaio

    Toda a gente tem motivos para temer o dentista, mas isto está em outro patamar!

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About Me

I’m not a complete crap…

But inside… oh boy!

 The chaos that goes on there!

 I was born with a supposed heart murmur that completely masked my actual disability – I actually had a completely broken heart that continued to deteriorate until it had to be replaced by another one.

But that change didn’t make me a new person without problems: the broken heart made changes to my body, and in reality, what I needed was to have all my organs replaced and only keep my brain (this way I would still be myself, because grabbing all of this and throwing it away might be an option). But the doctors’ effort to keep me alive was impressive!

Do I deserve all of this? I thought about it many times. The conclusion I reached is… of course I do!

This blog is about the difficulties of living with a disability like this (heart failure, which extends to the whole body), and how this disability affects me and the world around me. And how the world we live in affects me, given this disability. I plan to write true stories – everyday stories, stories that I consider hilarious and stories that have touched me in some way.

 There will be sad stories, but with a twist at the end. I will talk about what happened to me, how, and where. I will try to be true to my memory. I may also post thoughts. Since I am an activist, I cannot promise that these stories will be devoid of certain observations. Perhaps with this blog, I can help “wake up” someone, and, above all, help someone… Happy reading!

P.S. – The posts will be biweekly, but I may post more frequently. Subscribe!

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