Há muitos anos, ainda quando a minha deficiência não tinha sido diagnosticada, fui fazer um ecografia cardíaca com a minha mãe (a vulga “eco cardíaca”).
A minha mãe tinha tido um diagnóstico aos seus 20 anos (falo desse diagnóstico no Post “O diagnóstico da minha Mãe”), em que o Professor Doutor Fernando Pádova lhe disse que a sua vida iria chegar a um ponto em que precisaria de um transplante (era o início dos anos 70, tinham “acabado” de fazer o 1º transplante do mundo na África do Sul, e o seu sucesso ainda não era muito evidente).
Ainda não se faziam nem fariam durante muitas décadas transplantes em Portugal.
Então, estávamos nós (eu e a minha mãe) na sala de espera numa clínica imagiológica cardíaca, na baixa de Coimbra, quando chamaram a minha mãe de um intercomunicador. A minha mãe lá foi. Eu só não entrei com ela porque havia várias salas de ecografias, e podiam-me chamar numa delas, porque o normal era eu entrar para ajudá-la a despir-se e a vestir-se. Calhou não chamarem ninguém e quando a minha mãe saiu, ouvi o meu nome no intercomunicador, a mesma voz que chamou a chamou, para me dirigir para a mesma sala.
Entrei, despi-me atrás do biombo, deitei-me, pus-me em posição, de costas virada para o médico (tinha nascido com um “sopro” mal diagnosticado era acompanhada com frequência, pelo que era frequente este exame, logo, sabia do procedimento) e começou o exame. Estava o médico já a meio do exame, e posso afirmar que ele nunca tinha olhado para a minha cara, pelo que calculo que também não tinha olhado para a cara da minha mãe (porque éramos bastante parecidas fisicamente), e disse, sempre de olhos fixos no ecrã enquanto manuseava o ecógrafo:
– Não sei se conhece quem saiu desta sala antes de entrar… é sua familiar? Eu respondi que sim, que era minha mãe, e ele afirmou:
– É a primeira vez que isto me acontece, ver dois corações iguais. São iguaizinhos.
Na altura nem pensei no que isso poderia significar, porque o “sopro” era uma coisa tão real para mim como a miocardiopatia restritiva era real para a minha mãe.
Então, passei mais uns anos na minha inocência J
Mas sim, a deficiência da minha mãe era igualzinha à minha. Mas com nuances!

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