Antes de se existirem os oxímetros, e ainda depois da sua existência, retirar sangue arterial era a maneira mais fiável (acho que anda é) de saber qual a percentagem de oxigénio se tem no sangue. Começaram-me a fazer essas medições depois da minha primeira Trombo Embolia Pulmonar (TEP). Desde que a tive, que os meus pulmões começaram-se a ressentir, tanto que todos os anos tinha uma pneumonia, que me deixava internada durante um mínimo de 2 meses, em que essa colheita era obrigatória.
Como o sangue arterial é aquele que sai de esguicho, temos que carregar depois com toda a força para estancar o sangue. A consequência era eu ficar com o pulso todo negro. Não era nada agradável, principalmente porque era picada praticamente dia sim dia não.
A partir do meu 1º internamento desde a TEP, havia dias em que o sangue estava vermelho num dia, e preto noutro. Nunca percebi o porquê dessas flutuações, e desconfio que não me diziam para não me preocupar. Mas eu preciso de saber com o que conto: prefiro brincar com a minha derrota que com o desconhecimento. Porque eu não posso brincar com o que não sei…
Fiquei com cicatrizes dessas picadas. E terríveis memórias…
Desde que tive a 1ª paragem cardíaca que quem me seguia na medicina interna era o Dr. Nuno Bonito. Ele era dos que contava tudo, para o bem e para o mal, não poupava os detalhes sórdidos. Acho que foi o 1º médico que me fez isso. Como é obvio, comecei logo a gostar dele. Quando não percebia patavina dos termos médicos que ele dizia, ele explicava-me com exemplos:
Um dia, depois de me dizer uma coisa inteligível, explicou-me que eu tinha os pulmões de um velho de 90 anos que tinha fumado durante toda a vida.
Esse médico usava um relógio monstro, enorme na mão esquerda, mão essa em que usava também uma aliança grossíssima. Eu brincava com ele, dizia que daqui a uns anos, ia ter problemas de coluna, por causa do peso que carregava na mão esquerda, mas talvez fosse esse peso que o fazia tirar sangue arterial como ninguém. Picava e o sangue saía logo.
O sangue, recordo-me que era escuro, quase preto, no início dos internamentos, o que o deixava com uma cara preocupada. Já no final dos internamentos, quando o sangue saía vermelho, o seu semblante ficava mais leve.
O sangue, deve ser sempre vermelho.
Recordam-se daqueles anti-heróis/vilões, que têm sempre o sangue preto?
Eu via-me assim, e se calhar por isso, não me tinha assim em tão boa conta, achava que pertencia ao mal. Parece que o sangue preto nos contamina…

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